22/08/2013

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Temos padecido da solidão mais perversa. Não, a solidão dos entremeios da tua metafísica vasta e grande e poética. A solidão do arrenegado inviolável que pede arrego encostado ao azulejo do banheiro sob os pingos avarentos de um chuveiro de cínico chuveiro de hotel. A solidão em todos os lugares, de todos os tons, cosmopolita, implacável. Solidão insone.

E o amor resultou, de fato, inútil. Amor profundo. Pra que profundo se manco? Amor com asterisco, amor com nota de rodapé. Ama-se inconteste para companhia na solidão. Amor necessário. Por que necessário se inútil? Solidão áspera.

Pediu quatro coisas à deus: mulher, dinheiro, saúde e feijão. Deus, humildemente, tem lhe abençoado nesses sessenta anos amarrotados com feijões vulgares. Na tarde premiada de folga, depois de uma quarentena de trabalho, no banco desta praça republicana, as mãos aduncas do velho garçom salvaguardam o magote de notas loto fácil. Na despedida fria desaparece pequenino qual menino chapliniano abandonado na guia suja. Que será deste sexagenário garçom sem aposentadoria com essa bagatela de papéis frios guardando minuto antes da nova quarentena. Deus nos abençoe. E que nos vámonos! Nós que nada temos que ver com isso.  Solidão estúpida de bando.

Tropeçar cego na ferida aberta no asfalto. Com os lábios enojados.  No espaço invisível da perna do coxo. Homem de meias partes com tigela para meias patacas de esmola. Ouvir o obrigado formal. Um deus-abençoe displicente. Uma solidão de herege no deserto.

 Os sapatos estragados, um cheiro estragado de escravo velho.  A alma desbotada no encalço de um cheque não depositado. Sem conhecidos. O estômago colado nas costas. Solidão de bicho sem toca. 

Espancado desde doze anos virou bicho. Matou filho, matou a mulher, matou a sogra. Foi na cidade de “Muitos Capões”. Juramos! Foi achado no mato, numa toca. Balbuciava. Solidão de carrasco.

Precisava desentulhar humanos da unidade de cuidados intensivos. Por isso, matava. Mais carcaças chegavam logo mais. Dia após dia, sirene após sirene. Por isso, ela matava. Solidão de bárbara na guerra.  

Arrebentou-se todo. Pulou de pinheiro em pinheiro qual peter pan. Queria brincar. E era deveras velho e ridículo. Perna, quadril e tórax.  Esbagaçou-se tudo. Tem cabelos brancos e juízo de deficiente mental. Solidão de mentecapto. 

Conserta tudo: lavadoura, geladeira, freezer, fogão a gás... Prega papel ousado em terra pagã: “qualidade, limpeza e honestidade.” Solidão quixotesca.

Tinha brinquedos em miniatura no quartinho. Era auxiliar de limpeza, importante dizer. E só. Escusado dizer. Disse no diário que não iria mais sair. Tinha moedas para uma esmola. Escrito está em seu diário, e deus e o diabo é que sabem onde está: que sofrer, bem que sofrer não iria mais.  Morreu no desabamento na Avenida Paulista. O gerente lhe faz às honras às portas da morte. E nunca existiu. Solidão de inseto.


Destas solidões, que malbaratam o espírito, que se sente mas não se toca, que se ouve mas não tem som, que se grita, mas não tem voz, nasce a dor. Que não se sabe o que fazer com ela. 

09/05/2013


Lotação em Goiânia

Goiânia, pequena grande cidade. Goiânia planejada, não tem lógica: nem os moradores entendem. As ruas circulares ao redor de praças e identificadas por números são um tormento para quem é de fora. Muita vez ficam olhando pro alto pra precaução de vertigem. Logo, voltam a cara ao chão, desnorteadas. Para perdição de gênio qualquer, há ruas com o mesmo número em setores diferentes. Martírio de goiânio.
                Os primeiros dias levam qualquer razão-de-motorista em desespero. 
                Mas vá lá, esse reclamo burguês: isso, caro leitor incrédulo, é o de menor irritante em Goânia, o de mais vulgar desgosto, e compaixão. Não, o patético em Goiânia são condutores de lotação aguardando rapaz comprar bilhete. Gente séria e ruda do Norte, não compraze com isso não. Veja lá:
                Tudo parado? Já num subiu? Tá esperando o que esse carrancudo desse motorista? Vá, de homem, que o tempo é ganho de se doer? Vai não, é? E ninguém não diz nada? Af, mas eu tô é ficando doido? E fuça desconfiado nos cabelos escondidos do chapão de couro. Bom, de dar em menino malcriado. Mas num vai é mesmo?  Axi... mas será que sou eu ei de tomar providência dessa presepada? Hei? Eu cansado e encachaçado? Hein não? Ô motorista, vambô m bora que lá trás vem gente, ôi? Motorista desconfia. Gente do ônibus tem certeza. É gente de fora, coitado! E o motorista fraternalmente suplica . Tem que esperar o rapaz comprar o bilhete?!! E as gentes do ônibus olham entreolhadas e condenam (fraternalmente) a gente de fora. Silêncio autocondenador! Vergonha! Vazio! Silêncio que cabe na arredoma. Siêncio que explica e mostra. Silêncio. Ai, gente... desculpa é que eu sô de fora. Abana o chapéu cheio mesuras e salamaleques. 

07/01/2012

Sobre o alumbramento de Prascóvio das Dores

          Na noite derradeira, Prascóvio das Dores despencou daquele redemoinho de ideias tresloucadas e dormiu. Acordou. Garrou na enxada. Moeu raiz com as pancadas no chão. Pancadões fortes.  Um lastro de prascóvio surrou o chão. De repente, como que segurado pela enxada, estancou:

 Prascóvio
         Prascóvio
         Prascóvio
               
Não houve pensamento desentranhado que deliberasse. Não houve epifania que declarasse. Não houve fala que sussurrasse. Um arrepio, um confuso de sons tomando de conta, um medo todo junto a lhe desbaratar o sangue. Possuído de vertigem, tomba a enxada e olha o sol inclemente sem saber o que olha. E então, para o fim, abandonam-no de todo as forças, já não consegue manter-se de pé, foi-se curvando, nem deu por isso, e agora está de cócoras. É um pobre diabo espremendo a última fraqueza. Tem os olhos escuros e resplandecentes como minas. Repete:

Prascóvio? Prascóvio? Prascóvio?
Sussura sem som:
Homem?

Num rompante só, ideias dessas lhe percorrendo todo: se  viu inda menino brincando com a enxada do pai. Se viu moço, fugindo da dita. Se viu feito gente grande não vendo graça na maldita. E agora precisou segurar firme nela pra não despencar sobre os estrumes todos. Precisou garrar firme no cabo pra se possuir de novo.

Prascóvio agora matutava.
Mas que doideira foi aquela?
Tinha tomado café? Sim. Tomou café preto e um bom punhado de  farinha.
Era o cansaço? E cansaço é lá motivo pra doideiras dessas?
Ficou especulando ideia.
Qual foi o momento derradeiro?
Práscovio não entendia.

Alembrou-se que dia antes tinha ficado remoendo rancores e outras coisas suas que há anos pelejava por deslembrar. A filosofia de  Prascóvio  não é de tipo que põe armado. Tem seu vagar de pensar, trejeito seu de pôr de balanço a vida:
Povo da cidade lhe chamando de bicho-homem, quando não de lobisomem
Dono da fazenda querendo vender e Prascóvio que se mudasse feito passarinho que constrói casa em árvore qualquer
O dinheiro mirrado, os nacos de carne, o colchão feito pedra ensebada
A mulher enlouquecida, uma filha morta, outra puta e nada, sempre o nada
O enxadão que lhe manda, um trabalho que é uma desgraceira sem fim

Tudo era pouco ou demais.

E com mil demônios desses a lhe corroer, Prascóvio vai moer com o enxadão as raízes do mato. E aí, foi lembrando da derradeira doidera. Que o enxadão descia depressa, furioso, nem deu por ele, parecia vivo. E a terra? A terra? Parecia caçoar dele. E era dura, a maldita.. Lembrou também que na vertigem o marrom e o vermelho embaralharam-se todos, turvos. O vermelho marcava a enxada. E a enxada subia, descia. Olhava pra terra feito bicho endoideicido. Feito fosse uma matança. Os dentes cerrados. O suor, sangue. Prascóvio tinha raiva, ódio. Vivia só pra não dar gosto a ninguém de lhe velar com cara insossa.
E antes da doideira, Prascóvio alembrou-se. Sim, lembrou-se do que se esparramava no rés-do-chão de seu pensamento dia antes.
Veja lá: não é que ele tivesse dito. São coisas sabidas de quem narra:
Num acaba é nunca... a plantação inda se faz como fez Lorenzino das Dores, o avô, nem as pragas se varearam de ferrão, e se um caco invisível corta um dedo, o sangue tem a mesma cor. Sempre a trabalhar para a mesma horda, como houvesse nascido para isso. E só para isso. Um viver velho de palavras repetidas e repetidos gestos. O arco que a enxada desenha está ajustado ao comprimento do braço e a tombada da enxada na raiz produz o mesmo som, sempre o mesmo som, como é que não se cansam o ouvido destes homens e destas mulheres...é ceifar, é debulhar à maquina, é enfardar a palha, o feno, é espalhar adubo, é lavrar, é cortar, é podar, é abrir vala, é trabalhar na horta, é cavar a terra para os legumes, é trabalhar em poços, é trabalhar em brocas, em barracos,  é chacotar a lenha, é gadanhar, é tapar palheiro, é montear, é tirar cortiça, é tosquiar o gado, é enfornar, é ensacar, é arrumar cerca, é pintar, é bezerro machucado, é gado fugido, é o diabo...
E depois foi aquilo, o que ele chamou de doideira...quando o enxadão travou feito alguém tivesse segurado... o sol, o vermelho, a terra, e ouviu. Ou sentiu, ou disse, jamais saberemos. Não chorava, mas tinha lágrimas nos olhos, os olhos boiavam em lágrimas. Até um bicho teria piedade. O coração é um martelo que golpeia e atordoa, que vai ressoar dentro da cabeça:

Prascóvio
        Prascóvio
        Prascóvio

O nome repetido, uma, duas, três, quantas vezes não se puder contar. Prascóvio..hã...que diacho de nome é esse? E repetido parecia disparatado. Nome de comida ruim, isso sim. De bicho, bichinho pequeno, inseto de cão.

Prascóvio
        Prascóvio
        Prascóvio

Retumbando do seu íntimo, feito coisa-feita.

Prascóvio? Prascóvio? Prascóvio?
Sussura sem som:
Homem?

As letrinhas foram sumindo e rodeando ele todo, caçou as pernas, olhou espantado pras mãos.

       Prascóvio
       Prascóvio
       Prascóvio

E foi assim que Prascóvio das Dores perdeu-se de si e tempos depois - sabe-se lá quantos - em cena que deus não vê e o diabo só obrigado - foi encontrado nu no curral. Estatelado. Em sangria. Em meio aos porcos espantados.

11/09/2011

Meninas do Arrastão

O arrastão não foi de gente grande, não. Arre! Umas bichinhas sem nome, desmilinguidas, esmolambadas, remelentas, menos-que-meninas, entre o bicho e o homem, entre a besta dura e o cancro mole da cidade. Praticam arrastões nas ruas da cidade. Praticam arrassões nesta grande batota universal, diriam os delicados. 

Li nos jornais que no começo elas só pediam. Sim, senhor, pois muito que bem, bonita ação para se escrever. Digna dessa sovinicezinha: só pediam. Pequeninas ruindades serenas que só as palavras permitem. Não nos indignemos! Este é o mote que tem nos arrastado a todos.

Li nos jornais que pararam de pedir e começaram a roubar. Ah, que peçam incontinentis, decretadas, que cumpram pobreza, nisso não há mal algum.  Mas pararam. De pedir. E belo dia, começaram. A roubar. Como se pedir fosse assim, um gesto sereno e roubar fosse assim um que-não-diga! Expr’rimentem, senhores da pena. Roubem uma vezinha ao menos. Imaginalmente tentemos perceber, sub’entender: as pernas lhes tremem a multidão outrora indiferente de repente  corre-lhe atrás como que atrás de um inseto, está aguada - a menina - como mula que muito carregou, arregalada, as ruas se embaralham, e custa achar um beco, uma caixa, uma ponte, um forte,  custa a respirar, a pontada, pordeus, a pontada... És uma ignorante. O que tu tens é pavor e não sabes as palavras. Pobre besta!

Dizem os jornais que para elas São Paulo é uma Disney.  Disney, pasmem! Sim, a vida para elas é, definitivamente, este exercício lúdico, este jogo alegre. Grandes patetas essas pequenas lázaras que vão dormir mortalmente tão serzinhas e sós com os trapos sob um céu salpicado de estrelas impassíveis, com o estômago a ganir de fome nesta Disney que exala urina, merda e gozo, para logo mais sem que a cidade chore, sequer saiba, extinguirem-se como pavios.  

Dizem os jornais que são a gangue das garotas. E se um dia o Livro da Verdade fosse aberto? Hã? Medo! Que história contaria dessas meninas? E se lá houvesse uma frase curta assim-assim: nossa intenção foi nos unirmos para tentar sobreviver...não irão acreditar. Nesta gangue, diz o Livro, dorme-se na mesma beira, cobre-se com os mesmos trapos, come-se o mesmo pão de bagaço, os mesmos nacos, os mesmos talos, os mesmos fados. 

Os jornais dizem também que as instituições públicas querem retirar as crianças e famílias da situação de risco. Não sei, mas isso me pareceu assim de longe que quem está em risco são os comércios. E no Livro da Verdade uma delas, arrisca: 

sei não, mas se só pedíssemos haveria risco? 

Não sabem de nada, mas desconfiam de muita coisa. Todas iguais, todas sofredoras, uma gangue entre milheiros de gangues, todas ignorantes do mal que fizeram para merecerem tal castigo. E para elas não haverá mais vida que este arrastamento.

30/04/2011

Em busca do leite


É dia de buscar leite em uma dessas lentas aldeias.

Primeiro é o caminhão ronronando preguiçosamente na subida íngreme. Depois é o arrastar das caixas de leite: do fundo do caminhão até a mão do lado de fora, da mão para o chão, do chão um looongo arraste até o fundo de um obscuro corredor burocrático onde o bom leite é recebido, carimbado e rotulado. Na modorra simples e ingênua começam a chegar os moradores recém saídos das vielas opacas de casas fadigadas e tristes. Eles vem buscar leite. Um sol inclemente os abriga na longa fila de espera. De primeiro um burburinho tímido com o-de-trás-da-fila, logo mais uma confusão babilônica de contos de ontem, de ânsia do hoje, de espera do amanhã. Nada mais que a roda-viva da vida nestas rodinhas vulgares.

Por fim, o leite é entregue. Dona Cida - senhora de 50 e tantos anos, castigada pelo fumo, ex-tuberculosa - é a distribuidora da dádiva pública. Tosse e catarrea enquanto chama a senha dos contemplados. Somente famílias com crianças ou idosos podem receber. E quando sobra leite os “encaixados” também podem se beneficiar. E quando não tem leite? Ah, quando não tem leite...

- Tem leite, não?

- Não, caminhão não veio não...

- Veio não? Oh-meu-deus...

Solta uns muxoxos, um vulgar obrigado. Para. Se escora na porta com aquela cara de cão batido dos estropiados e lamenta. Lamenta o caminhão não vindo. E nem tem muito o que protestar, afinal, é o caminhão que não veio do fantástico Mundo dos Caminhões de Leite. E que mais se pode esperar de um velho a quem acabou de se recusar um saco de leite?

O que esse povo precisava é de uma vaca. Sim! Uma vaca bem que viria a calhar por estas bandas. Uma não, pelo menos umas duas ou três para não sobrecarregar as tetinhas de uma vaca só. Esse pessoal gosta tanto de leite e são tão precisados. Eu cá comigo, fico matutando, remoendo e achando tudo isso de uma perversão vergonhosa. Me dói todo meu ser-humano vê-los ir embora com sua sacolinha vazia e resignada. Isso embrulha meu coração como um sujo papel embrulha qualquer coisa.

Não é supervalorização do leite não, gente. É leite, poxa vida. Não devia ser certo deixar gente sem leite. Crianças, velhos. Ora essas, gente de todo tipo. Porque tanta ansiedade por um saquinho de LEITE? Senhas? Encaixe? Cadastro censitário? Todo mundo devia poder beber leite como se fosse a coisa mais natural deste mundo. Mas se não houver ao menos um pingado de manhã ou um leite com Toddy como poderá a família viver com decência? Aquele pedreiro precisa de ao menos um pingado antes de sair de casa. Que fará a família nas noites de inverno sem um leitinho pra aquecer? E as crianças sem bigode de leite? E as mães que ralham com as crianças que tem que tomar leite? Imaginem um desses meninos peraltas nunca marcados por uma nódoa de leite na camisa da escola. Que honras poderá esperar essa criança na vida, se a inicia assim sem a menor dignidade?

Gente, gente...

Há qualquer coisa de intolerável nisso tudo até mesmo em meio as outras tantas coisas intoleráveis. Algo de um absurdo perverso até mesmo para nossos sentidos embotados.

Ponhamo-nos melancólicos todos, oras: falta leite!?

Valha-me-deus: eles não dividem túnicas, nem pães, nem peixes, nem leite. Inútil Jesus.

Trabalhadores: do seio de teu trabalho não pinga nem leite e tuas crianças continuarão a crescer magras e ignorantes. Perverso Trabalho.

E este leite doado, não serve pra beber não, senhor.

É ruim!

Ruííím que é o diabo.

É só pra doce.

E queijo.

29/03/2011

O mínimo

Muita parra e pouca uva no debate em torno do novo valor do salário mínimo. Governo federal, oposição e centrais sindicais enfrentaram-se em uma balbúrdia de lances: 540, 545, 580, 600! Nem tanto ao mar, nem tanto a terra: o novo valor do salário mínimo foi definido em R$ 545,00. Deu bode! Para os trabalhadores, claro.

A oposição (quem diria!) jogou alto: R$ 600,00. Mas macaco velho sabe que debaixo desse angu tem carne. Em que pese (e não pesou!) os anos de arrocho salarial promovidos, outrora, pelo bom governo do PSDB. Mas o partido não se deu por achado: foi pregar em outra freguesia. Depois de dar com os burros n’água e amargar uma pesada derrota na votação do salário mínimo na Câmara e no Senado, a oposição agora prepara o bote: a chamada “operação obstrução” - formas de arrastar as discussões para mudar ou mesmo paralisar as propostas enviadas pelo Executivo ao Congresso.

Os sindicalistas levaram a manta naquele acordo de 2008. O acordo feito pelo governo Lula com as centrais sindicais definia que o reajuste do mínimo seria calculado pela inflação do ano anterior mais a variação do PIB de dois anos antes, ou seja o reajuste de 2011 deve ser a inflação de 2010 mais a variação do PIB de 2009. A regra é clara tanto tanto nas épocas de vacas gordas quanto na de vacas magras. Agora ficava chato dar uma de joão-sem-braço e pedir um aumento maior. Os sindicalistas defenderam o aumento de R$ 580,00. Azularam e ainda levaram tábua.

O Governo, de primeiro, pediu muita cautela e caldo de galinha. “Nesse momento é temerário a gente aumentar o valor acima de R$ 540. O Governo vai batalhar para que essa seja a decisão que vai prevalecer. Se vier alguma coisa diferente, nós vamos simplesmente vetar”, disse o Ministro da Fazenda Guido Mantega. É temerário! Que escandâlo de palavra. Já imagino uma grande tragédia assolando o Palácio do Planalto com blocos gigantes contendo R$ 540,00 e ministros com suas gravatas esvoaçando catando notinhas nos jardins de Burle Marx.

Por fim, o governo federal preocupado com o ajuste fiscal, uma conta ali, outra acolá, o compromisso com o capital, sacumé - deu zebra: R$ 545,00. Sem choro, nem vela. A Câmara dos Deputados mostrou que não é casa da Mãe Joana: “enquadrou” deputados do PT e partidos aliados. Alguns governistas ficaram debaixo do balaio em nome da santíssima disciplina partidária.

Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas. Um bocado de dialética nestas linhas tortas não seria de todo o mal. Quiça tapeie os desavisados, ludibrie os incautos, distraia os bocós, além de dar para esta pena um pouco mais do que fazer. Pois bem. E a alta dos juros? Causadequê? Ok, freia a demanda, amarra a inflação. Como? Por que? Os arautos da real politik pregam que com a alta de juros os indivíduos e as empresas –os chamados agentes econômicos, na fala de Joelmir Betting – tenderiam a ser mais atraídos para poupar seus trocados devido à remuneração oferecida pelo setor financeiro e direcionar menos recursos para o consumo. Resumindo, haveria uma tendência a reduzir a pressão da demanda sobre a oferta existente. E com isso, afastaria o monstro da inflação, resultado desse descompasso entre uma demanda crescente e uma incapacidade da oferta de se recompor no curto prazo. Ok. Só isso? Não. E todo o resto?

A taxa de juros nas nuvens provoca um afluxo de recursos externos em níveis elevados, que pressionam nossa taxa de câmbio: o real fica cada vez mais forte em relação ao dólar. Com isso, torna-se periclitante a situação de nossas contas externas. As importações ficam artificialmente baratas. As nossas exportações ficam menos competitivas, especialmente as de produtos industrializados. Aí, a Balança Comercial fica deficitária. Aí, investidores do mundo inteiro despejam aqui dinheiro que não vem pra investimento, mas pro cassino financeiro. Sem falar no estrago sem precedentes na indústria nacional. Fica muito mais fácil importar do que produzir qualquer coisa aqui no Brasil. E assim nossa fazendinha poderá fornecer grãos e carne para os europeus. Salve a indústria nacional - implora o eterno ruído dos ossos de Vargas. Cloc, cloc, cloc.

E tem mais: juros altos fazem a alegria dos banqueiros e daqueles que vivem de aplicar dinheiro à taxas monstruosas, “ajudando” assim a financiar a dívida pública (sempre crescente, por causa dos juros!). “É preciso primeiro cortar os gastos públicos”. A velha lenga-lenga. “Precisamos fazer a lição de casa”. Dilma fez exatamente isso, com o corte recente de 50 bilhões no Orçamento. E elevou os juros ao mesmo tempo. O que reduz o PIB que está relacionado ao aumento do salário mínimo. Que continua sendo mínimo (?!) Há! Entonces, que briga de foices e martelos emplacar? Vale a pena jogar com pau de dois bicos? Qué hacer?

Mas águas passadas não movem moinhos. Para melhorar a relação com centrais sindicais após o embate sobre o valor do salário mínimo, a presidente Dilma Rousseff resolveu lhes fazer um cafuné: regulamentou lei que dá assento aos trabalhadores nos conselhos de administração de empresas controladas pela União.

Os trabalhadores ficaram naquela: sem eira, nem beira. Trinta e cinco mangos mais polpudo e com uma consciência de classe que aconselha não olhar os dentes de cavalo dado. Sem tugir, nem mugir, vai perdendo a tramontana. Mas se a dor ensina a gemer o pobre sabe que jacaré que fica parado vira bolsa. Sabe também que barco parado não faz viagem, mas também sabe que com uma maré dessas é que o bote não sai mesmo.

01/11/2010

Los 33

Reza a lenda andina que nas entranhas de uma montanha do Deserto do Atacama trinta e três homens ficaram confinados a setecentos metros de profundidade em uma mina de ouro por sessenta e nove dias.


Lá dentro os homens arranham a montanha em busca de ouro. Martelam, içam, carregam e empurram toneladas. Sob a luz bruxuleante movimentam-se em uma mudez solidária, vagam na solidão das sendas, se fundem no silvo das máquinas. Em alguns trechos das galerias caminham encurvados, semiagachados ou rastejam-se penosamente em uma temperatura sete graus acima da superfície. Tudo isso sob uma sensação claustrofóbica. A montanha lhes oferece em troca do ouro um torpor morno e uma fadiga vertiginosa; ressoa cavernosamente seu bafo pegajoso como um monstro em repouso; abriga os homens em sua umidade morna e os molda à sua imagem, ao tom de sua secura ou viscosidade. Lá fora os homens depositam o punhado de ouro nas mãos avarentas e trêmulas do Velho Capital.

Neste dia normal de trabalho uma enorme rocha desaba sob a entrada da mina. Os mineiros sentem um estremecimento, ouvem um estrondo e uma grande nuvem de poeira embaralha seus sentidos. Segundos depois do atordoamento inicial os mineiros começam a percorrer as galerias e procurar uma saída. Esgotadas as possibilidades constatam que estão presos. Um bulício desesperado é calado por uma voz imperativa. Questão de ordem! Um mineiro pede calma. Se reúnem, esperam. As horas passam. Chega a noite. Corre o dia. Chega a outra noite. Amanhece. Percebem que precisam de medidas para mantê-los vivos o máximo possível. É preciso viver.

Os suprimentos só vão durar mais um dia. É preciso racionar. Sobrevivem durante dezessete dias com duas colheres de atum enlatado, um gole de leite e meio biscoito a cada 48 horas. Depois passam três dias sem comer e bebendo somente água. No vigésimo primeiro dia os nervos se alteram, os mineiros se dividem em dois grupos isolados em galerias diferentes. No vigésimo terceiro dia, esquecidos da cultura e desobrigados moralmente pela fome um dos grupos sequestra durante a noite um dos mineiros do outro grupo. Com marteladas o mineiro é assassinado e sua carne rasgada com picaretadas. Os mineiros se banham no sangue e se fartam em sua carne. Os mineiros do outro grupo invadem a galeria onde o ritual antropofágico se passa. Se revoltam, avançam sobre os mineiros canibais. Matança alucinada. Os feridos que sobrevivem agonizam va-ga-ro-sa-men-te. Foi um contorcer de corpos, um arquejar bestial, um esticar de beiços, um ranger de dentes, um espumejar de sangue e saliva, um estremecimento gélido, uns queixumes, umas ladainhas, um arregalar de olhos, um agarrar não-sei-quê como quem tenta agarrar a vida, por fim, um revirar de olhos medonho, um arranque pra cima, o afago de uma lágrima lenta e a morte. Horas de Horror sepultadas como segredo da montanha.

Los 33 e a Fênix

Não, a lenda não existe. Os mineiros foram resgatados não por uma dessas divinas providências, mas pela genialidade humana. No décimo sétimo dia os mineiros foram descobertos e cinquenta e dois dias depois resgatados pela criação humana chamada cápsula Fénix 2 que realizou setenta e tantas viagens de subidas e descidas ao subterrâneo para resgatar os trinta e três mineiros.

As idiossincrassias da história real superam em beleza o horror da fábula. Pablo Rojas, por exemplo, um dos mineiros disse que se casaria com sua namorada com quem está comprometido há VINTE E CINCO ANOS. Era SÓ isso o que ele precisava pra ter certeza que ela é a pessoa certa: ser confinado por 69 dias. Pra refletir melhor, colocar as ideias no lugar. Saca? Outro mineiro, Esteban Rojas Carrizo, é um grandiosíssimo hijo de puta. Casado há 28 anos, tem uma amante que teve a ousadia sem-vergonha de esperá-lo no acampamento construído aos pés da montanha para recepcionar os mineiros. Esposa e amante duelam e, por fim, a esposa abandona o acampamento e Rojas é recebido com beijos tórridos pela amante. O outro, Juan llanes Palma, quando questionado sobre como foi viajar na Fénix, diz docemente, “Excelente, foi como um cruzeiro”. O outro, Mário Sepúlveda, sobe a cápsula gritando VIVA CHILE......mierda! E teve que ser apressado (depois de sessenta e nove dias!) por um dos integrantes da equipe de resgate para sair da mina. E resmunga um tranquilo Já vou, já vou. Tsc, tsc. E se a caverna lá de fora tenta ofuscar a lucidez, o mineiro Franklin Lobos é imperdoável Não somos heróis. Limitávamo-nos a lutar pelas nossas vidas, porque temos famílias. Somos, isso sim, vítimas dos empresários que não investem na segurança. E houve governo representativo nas minas Tudo era submetido a votação, Éramos 33, portanto 16 mais um era uma maioria diz Luiz Ursúa. E houve pacto de sangue na mina, confessou dia desses Mário Segovia O que acontece na mina, fica na mina. E se o show quer transformar os mineiros em estrelas, Sepúlveda responde galhardamente Não quero que me tratem como artista, nem como animador, mas como Mário Sepúlveda, como trabalhador, como mineiro. E que sensação morna e ingênua deu no peito da gente esse recadinho deles: Estamos bien, los 33 en el refugio.

Mirem o espetáculo de humanidade (em absolutamente todos os seus sentidos) quando as riquezas produzidas pelo trabalho dos indivíduos se tornam assim, de repente...genéricas. Sem Fênix, o que seria destes homens? Nenhum realismo fantástico pode imaginar. A Fênix 2, essa objetivação que coagula em si as conquistas da humanidade, em termos do que foi construído, que convergiu em si a criatividade, a multiplicidade de gostos e aptidões, a realização da liberdade das individuações, da sociabilidade, da universalidade, da consciência, ou seja, do desenvolvimento multilateral de todas as capacidades e possibilidades humanas desenvolvidas no intercâmbio universal, a evolução de todos os poderes humanos em si...por meio segundo histórico esta criação pareceu genérica. Todo um aparente caos de categorias e objetivações...tu-do ordenado nesta criação para a providencial salvação dos homens. Pertenceu aos mineiros, e assim pertenceu a humanidade inteira neste breve segundo.

Eu? Acho incrível.

Mas riqueza genérica tem preço. E o custo do resgate já foi computado: vinte e dois milhões. E renderá mais e mais. E mais mineiros morreram semana atrás no Equador. Mas o show já acabou. O ouro e a prata da América Latina foram saqueados há séculos e está ornando a Europa. Mas ainda hoje os mineiros estão raspando o pouco ouro e prata das montanhas andinas para sustentar uma vida pouca. E onze mineiros foram mortos dia dezessete em uma mina na China. E não teve Fênix que os salvasse.

27/08/2009

Qué hacer?


Queimar as fotografias de viagem. Arrancar deste mundo as marcas dos sonhos que já tive. Ah! Mil vezes a voracidade do fogo à poeira resignada. Em volta das chamas derramarei lágrimas de uma vingança estéril auto-infligida. Dedicar os sonhos à noite, somente à noite.


Parar! Parar de fotografar sonhos, parar de inventar sonhos à custa do sono forçado da razão, parar de ofender-me com a idéia (falsa idéia) de liberdade, parar de viajar sozinha em um mundo que me repele, parar de emprestar intensidade a tudo, ao que não merece, nada merece. Parar com a ânsia de agarrar o momento, parar com tudo. Caminhar em descompasso com a alma, em compasso com a engrenagem, apressada com o nada, ser nada.


Permitir! Permitir que o hábito anestesie a dor e a pungência de ver tudo, de sentir o estremecer de cada coisa tocada, de cada coisa vista, ouvida, despedaçar essa tensa corda de violino. Basta permitir. Permitir ser engolida pela inclemência das horas, pelas novidades tediosas que fazem o tempo correr desenfreado, não debochar do tempo, comprar calendários, sublinhá-los, comprar uma agenda, programar, agendar a vida, cravar um relógio no pulso, marcar o tempo, cifrá-lo, respeitá-lo.


Mutação! “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua casa metamorfoseado num inseto monstruoso”. Perder a humanidade para se tornar mais humana, ser parte da histeria coletiva. Recortar o excesso de personalidade, amoldar-se, estranhar-se, aviltar-se, desencantar-se, livrar-se da alucinada lucidez, transformar-se em monstro para obedecer cegamente à insistência da vida.


Sim! É isso. Agora, entendo. Agora, admito.


Bah! Pensando bem, fazer tudo isso daria um puta trabalho.


14/02/2009

Cerro de Sangre

Cerro Rico, Potosí, Bolívia


Bolívia, 1462. O imperador inca, Huayana Cápac, fica deslumbrado ao observar o monte chamado pelos aymarás de Sumaj Orcko (Cerro Rico, Morro Majestoso). Imediatamente, ordena a seus escravos que explorem a montanha. O inca quer ornamentar templos de seus deuses em Cusco. Aqui, metais e pedras preciosas não possuem valor monetário, apenas espiritual. Durante a expedição, os escravos foram interrompidos por uma voz forte, cavernosa, similar a um trovão. E dizia: “Não é para vocês. Deus reserva estas riquezas para os que vêm de longe”. Apavorados, os índios fogem. O inca decide não enfrentar a montanha e a abandona. Antes, dá ao local o nome de Potojsi, que em aymará significa tormenta ou estrondo. Ela permanece rica e esquecida por mais 30 anos até que, casualmente, o índio Diego Huallpa a liberta do silêncio.


A história é recriada nas artes. Artistas indígenas e mestiços que pintavam para a corte espanhola introduziam em suas obras o dramatismo de sua história. Mesclavam as expressões andinas com os valores europeus. “Virgen del Cerro” é a arte de um pintor desconhecido do século XVIII. Sintetiza em sua iconografia a descoberta de Cerro Rico, a partir dos rastros do índio Huallpa.


A Virgen del Cerro (autor desconhecido)


A tela e quem nela pinta são objetos da colonização e, como tais, devem retratar o mundo sob a perspectiva européia. Por isso a personagem principal é Virgem Maria. Mas, há coisas que não se moldam ao toque vulgar do colonizador. Para os andinos, a Virgem é, na verdade, La Pachamama, a Mãe Terra. O artista pintou no manto da virgem a descoberta de Cerro Rico. O índio Huallpa, pastoreava suas llamas. Uma delas foge. Ao anoitecer, ele a encontra no topo do monte. Estava frio e Huallpa acende uma fogueira. Com o calor, veios de prata escorrem da montanha e revelam seu segredo para sua eterna sangria. O repentino enriquecimento de Huallpa, induz ambiciosos a seguirem seus rastros e pouco tempo depois o imperador espanhol, Carlos V, se apodera de Cerro Rico “a serviço de Deus, nosso Senhor, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Na parte inferior da obra, autoridades civis e religiosas agradecem a Deus pela riqueza do Cerro, à esquerda o Papa, um cardeal e um bispo; à direita o imperador Carlos V e um cavallheiro de Santiago. No meio deles, um círculo, Potosí, o centro da economia e do poder do mundo ou o mundo aos pés da riqueza de Cerro Rico. Assim, morre Potojsi, como a chamavam os aymarás e nasce Potosí, porque assim é que o espanhol prefere pronunciar.


Desde então, a população de Potosí cresce vertiginosamente e sua riqueza financia a Coroa espanhola à custa do extermínio indígena. A acumulação de capitais do Velho Mundo é banhada pelo sangue dos índios. Os espanhóis determinaram que as tribos deveriam “contribuir” com a exploração e seus caciques foram obrigados a convocar nas aldeias índios para serem recrutados na exploração de Cerro Rico. Eles nunca mais voltariam. Trabalhariam até a morte dentro dos fornos infernais que eram as minas de Cerro.


Hoje, caminhar por Potosí, é sentir na alma a ofensa pungente que a opulência dos palácios coloniais ostentam, tudo edificado por uma riqueza que apenas amaldiçoou seu povo. Pior. Ainda resta no interior da montanha o testemunho vivo. A prata deu lugar ao estanho. Nas galerias cavadas ao longo da montanha sobrevivem homens quem arranham os restos de uma herança amaldiçoada.


Mineirador de Cerro Rico

Por um salário que não ultrapassa 30 doláres mensais, eles são tragados pelas profundidades claustrofóbicas da montanha em um trabalho braçal, extenuante, desumano. Lá dentro, onde o simples ato de caminhar é penoso devido ao ar rarefeito e à temperatura insuportável de 45º, esses homens rastejam, martelam, içam, carregam e empurram toneladas. Quando saem, depois de 12 ou 14 horas de trabalho, não são mais do que espectros de si mesmos. O almoço se resume a mascar folhas e folhas de coca para anestesiar a fome e o cansaço. Antes de voltar às minas tomam álcool puro.

Lá fora, as crianças filhas de mineiros, vendem exemplares de pedras contendo estanho como souvenir a turistas. Lá fora, um grupo de turistas se diverte às gargalhadas tentando explodir a dinamite utilizada pelos mineiros. Lá fora, uma senhora indígena estende seus braços implorando por esmolas em um suplício desesperado: “Ajuda-me, ajuda-me”.


Antes da chegada dos espanhóis Cerro Rico estava coberta de arbustos. No cume predominava uma coloração marrom devido a abundância de paja brava, vegetação utilizada como alimento de llamas e alpacas e na construção das casas. Aos seus pés floresciam diversas espécies de plantas nativas com múltiplos usos. Esse manto vegetal foi mudando gradativamente à medida que a montanha engolia e matava os índios. Em Potosí se afirma que com o mineral que os espanhóis roubaram seria possível construir uma ponte de prata entre Potosí e Madri e outra ponte similar com os esqueletos dos índios mortos na exploração cruel desses 300 anos. Hoje, Cerro Rico é vermelha e oca. Pelo sangue derramado em suas entranhas os aymarás a chamaram de Wuila Ckolo, Cerro de Sangre.