24/09/2007



Há algo de podre no Reino da Fundação Santo André

Uma Reitoria que nos últimos três anos aumenta em mais de 30% o valor das mensalidades.

Um Reitor que se beneficia de viagens ao exterior sem necessidade, motorista particular, dois seguranças, um cozinheiro, carro e combustível às custas do caixa da Fundação, cujos dados contábeis são abertos somente à própria Reitoria.

Uma Reitoria que fecha salas e turmas dos cursos de Geografia, História, Letras, Ciências Sociais, Matemática e Pedagogia, que debilitou os laboratórios de exatas a ponto de querer abrigar 100 alunos em uma sala que cabem 40.

Uma Reitoria que gasta R$4 milhões em 48 cargos de confiança totalmente dispensáveis por não possuírem qualquer justificativa técnica. Que possui em seu quadro cargos em comissão, indicados por políticos, consumindo R$2,5 milhões, que resultou em um déficit de aproximadamente R$350 mil no caixa da universidade.

Esse é a administração Odair Bermelho na Fundação Santo André, instituição que têm por tradição a qualidade de ensino há décadas na região do Grande ABC.

Ocupação e greve
O estopim para a ocupação da reitoria da FSA (13/09) e a greve em seguida (15/09) foram os fatores acima mencionados e, acima de tudo, um memorando da universidade comunicando a extinção de alguns cursos e o reajuste das mensalidades que em alguns cursos significaria um aumento de até 126%.

O caráter questionável desta administração ficou ainda mais evidente em nota divulgada após a ocupação, onde a reitoria afirmou não serem verdadeiras as informações sobre o aumento das mensalidades em até 126%. Uma maneira cínica e grotesca de ludibriar os estudantes e professores. A reitoria comunicou sim essa proposta de reajuste, inclusive através de um memorando assinado pelo pró-reitor de graduação. Documento este que está em posse dos alunos envolvidos nas manifestações.

Repressão
A ocupação da reitoria foi realizada de forma organizada e pacífica. “Foi uma demonstração de organização que ensinou os professores”, disse um professor presente na reunião com o prefeito de Santo André.
(vide gravação Rádio Movimento www.radiomovimento.net/site/especialFsa.htm). “Esses jovens estão sentindo as mesmas angústias que nós. Essa reitoria está tentando nos transformar em uma universidade que nós não somos. A FSA está perdendo a identidade”, alerta o professor.

Mesmo com uma atitude organizada e pacífica, a PM invadiu a reitoria, sem mandado judicial e com policiais sem identificação (vide as fotos no blog da ocupação - http://ocupacaofsa.blogspot.com). Os policiais usaram cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, tiros de balas de borracha e agora alegam que tentaram negociações com os estudantes e como eles se recusaram “tiveram” que utilizar outros meios. Como se a invasão de uma manifestação pacífica, sem mandado judicial (leia-se“baixar o cassetete”), se justificasse simplesmente porque os estudantes se recusaram a se retirar em pleno ato de manifestação.

“Vocês vão apanhar que nem ladrões”, essas foram as palavras utilizados por policiais militares durante retirada violenta dos estudantes que haviam ocupada a reitoria. “Invadiram, agora agüentem”, diz um representante da reitoria, o advogado Domingos, em tom de ameaça aos que participaram da ocupação.

Estudantes e professores se reuniram com o prefeito de Santo André, João Avamileno, na semana passada (18/09) apresentado denúncias de irregularidades e exigindo providências. O prefeito diz estar ao lado da Universidade e não dos alunos ou da reitoria. “Violência gera violência. E a invasão da reitoria foi uma violência”. Pode-se dizer, sem medo de errar, que a violência neste caso é apenas uma questão de ponto de vista, Sr.Avamileno, pois a principal violência está sendo cometida contra a Fundação Santo André, através da precarização e destruição gradual dos recursos da universidade e não são os estudantes que estão fazendo isso. É nesse molde que esse movimento chamado OCUPAÇÃO FSA se insere.
______________________________________________________________
27/09 (quinta): ATO PÚBLICO NA FUNDAÇÃO SANTO ANDRÉ -
Contando com a presença, além de todos os alunos em greve, de estudantes, entidades, etc, que apóiem a luta na F$A!

02/09/2007

Bendito seja o MST

Sábado, 01 de setembro, Universidade Metodista. Dia de conhecer assentamento do MST. E segue a turma universitária rumo ao laboratório da vida real. No fundo do ônibus, estudantes de filosofia (ou filósofos estudantes), empolgados com o conhecimento, discutem de Nietzsche a Marx, de Foucault a Raul Seixas.

Entre conversas, risos e reflexões caladas, o ônibus segue sua viagem rumo à cidade de Guararema, interior de SP. Parada rápida na Escola Nacional Florestan Fernandes, obra inaugurada em 2006. A Escola carrega o nome do Mestre e no interior só se sente o espírito dele e de outros Mestres. “Camilo Vive”, diz o pôster vermelho pregado em uma das repúblicas, em homenagem ao primeiro padre guerrilheiro na América Latina.
Na sala de aula, janela com vista para a terra conquistada, um professor carismático arranca risadas de seus alunos entre um retrato de Marx e outro de Florestan Fernandes.

Mas, nem só do passado vive o homem. Por isso, a Escola também é decorada com fotos dos próprios sem-terra: camponesa com chapéu de palha e enxada na mão, cortador de cana em sua labuta no canavial, criança brincando com a terra, criança na escola.

Na parte externa da Escola, república para os estudantes e uma ponte de uma beleza agreste que só poderia mesmo dividir a área pertencente ao MST e o único pedaço de terra ocupado. Na terra: mudas plantadas. Por que, de terra ocupada pelo MST, só se produz isso: comida.

A viagem continua com os corações mais leves e realizados, ansiosos pela chegada ao assentamento. Impressionados. Emocionados. É assim que os olhos de quem é apaixonado por esse movimento ficam ao ver o que, de fato, significa esse movimento. Dá certo! É isso o que ficou implícito em cada canto desta Escola.

Ônibus de novo "comendo poeira" com destino ao assentamento, paisagem muito verde e cinza ao mesmo tempo. Casebres com homem da terra amansando cavalo, vaquejando gado e cuidando da plantação. No meio do desmatamento e do gado magro um outdoor que diz: “CONDOMÍNIO FECHADO, a vida que você sempre quis”. Ao redor de cada placa sempre terra pobre e cinza, mato queimado e cerca. Terra pobre para produção de alimento, rica para o cimento das mansões do homem do asfalto.

Chegamos ao assentamento e quem nos recebe é D.Maria, chapéu de palha na cabeça, andar manso, fala simpática, abraço aconchegante. Subimos a estradinha de terra rumo ao local onde a bandeira do MST estava fincada. Vermelha, flamejante, parecia gritar vitória ao balançar dos ventos.

No caminho, riacho com água limpa e refrescante, mata fechada, criança andando à cavalo na rua chamada “Revolução”, cada casinha com seu homem da terra e sua terra demarcada, ansiosa para ser trabalhada, cheiro do eucalipto plantado para gringo, que será substituido por comida. D.Maria aponta lá longe, os traços dos vales que determinam os limites das terras ocupadas pelo MST. É terra demais. Dá gosto de ver. A visão das várzeas e das plantações de arroz revigora os olhares.

Subindo morro, D.Maria vai respondendo às perguntas dos estudantes e suas lupas. Para cada pergunta, digamos surreal (pra dizer, no mínimo), D.Maria respondia com palavras sábias. “E as crianças pequenas de 1 ano, 2 anos...”. pergunta a figura. “Só brinca, vai fazer o que, né?”, responde D.Maria, com uma calma inexplicável. “Depois vai estudar, aqui no MST criança tem que estudar e não trabalhar”, complementa ela. Pergunto à D.Maria de onde ela é e como se envolveu com o MST.
“Sou baiana. Ah, cansei sabe? De ser explorada por patrão. Aí conheci a luta e não parei mais não. E continuo porque gosto, né? Creio nisso.” responde ela. Fito o rosto simpático dela e pergunto novamente “Gosta mesmo?” (só para ouvir de novo). “Gosto, ah se gosto”, responde ela sorrindo largamente.

Lá de cima do murro, ela grita para o vizinho:
“SIMBORA OCUPÁ?”
Os estudantes caem na risada e esperam a resposta:
“VÁ LÁ, QUE EU JÁ TÔ INDO? FEZ CAFÉÉÉ, D.MARIA?
Berra o vizinho do outro lado.
Mais risadas.

Concluindo a viagem, descansamos na casa do seu Domingos. Sentamos no sofá, tivemos breve aula de agronomia, tomamos a cachaça oferecida. “É sério?” perguntamos quando ele a oferece: “Tá aí, do lado do fogão. É da boa, pode tomar”, diz ele. Risadas satisfeitas. Esse é Seu Domingos. Recebendo 40 intrusos e com um sorriso largo estampado.

Agora, só restava descer a ladeira, com a alma revigorada e a paixão ainda mais exacerbada. E nunca, essa frase pareceu mais apropriada:

“Bendito seja o MST, se ele não existisse teríamos que inventá-lo”.