“Desaprendendo” o jornalismo entre Caros Amigos
1º Anti-Curso de jornalismo da Revista Caros Amigos
Na faculdade de jornalismo me apresentaram o célebre Manual de Redação. Nunca entendi direito esse troço. Logo no primeiro semestre os professores disseram que o tal livrinho era indispensável. Lá vai eu na biblioteca, inspecionar o dito cujo. Sozinha, no corredor da biblioteca não deu para evitar uma risadinha debochada. Tantos livros que me interessam comprar que, gastar dinheiro naquilo só poderia ser uma piada (de mau gosto). Na próxima aula os mestres contaram histórias de estagiários que passaram por maus bocados com seus editores por não saberem as regras do livro sagrado.
No Anti-Curso da Caros me ensinaram que o Manual de Redação tem por objetivo suprimir o autor. “Você vai estar tão condicionado às normas do Manual e o teu texto vai estar tão submetido às regras que no final das contas não interessa quem escreveu o texto”, afirma o Arbex.
Em outros cursos, cansei de ouvir aquela ladainha de “ingênuos” jornalistas alegando que é perfeitamente possível se trabalhar em um veículo empresarial, a mídia gorda e, ainda assim manter a sua autonomia. Enquanto escrevo este texto a Record exibe orgulhosa sua matéria do dia sobre o poderoso chefão, Edir Macedo. Paulo Henrique Amorim, sujeito distinto do jornalismo brasileiro, ao invés de fazer uma reportagem só faltou pedir a benção do santo homem. Nenhuma menção à famosa reportagem da Globo mostrando Edir Macedo tentando cooptar pastores da Igreja ensinando a “angariar” fundos dos fiéis: “Se você quiser ajudar, Deus vai te ajudar, se não quiser outro vai. Ou dá, ou desce”, ensina o abençoado. (pesquise no Youtube). A matéria mais parecia campanha de publicação do livro de Edir Macedo que, “coincidentemente” seria lançado no dia seguinte.
O que é mais grave, segundo Arbex, é que se essa fosse uma política da empresa seria até compreensível. “Afinal, sempre foi assim, se você quer mostrar a sua opinião funde o seu jornal”, diz ele fazendo alusão à frase de Assis Chateaubriand. Mas, segundo Arbex, “o mais grave é ver jornalistas fazendo papel de cães de guarda dos donos do jornal”. Que o diga Paulo Henrique Amorim.
Para os (ainda) iludidos, o Arbex nos dá outro exemplo. Conta que perguntou a um jornalista Global o seguinte: “Quando você se refere ao Osama Bin Laden, você diz: ‘o fundamentalista, terrorista, islâmico Bin Laden’. Por que quando você se refere ao Bush não diz: ‘o fundamentalista, protestante, terrorista George Bush?’. Isso tudo ele é. Ambos concordam. O jornalista respondeu: “Por que ele é um presidente eleito”. O Arbex retruca: “Pior ainda. No golpe da Venezuela vocês fizeram um brinde à deposição do Chàvez. Por que um presidente pode ser deposto e o outro não?”. Velha cara de interrogação do outro lado.
O fato é: a grande imprensa apresenta os fatos como se fossem retratos do mundo, “o que não está de acordo de acordo com eles é ideologia, é anti-jornalismo, é militância”, continua Arbex. Foram 6 milhões de votos a favor da reestatização da Vale do Rio Doce. Nenhuma linha sobre o assunto nos jornais da grande mídia.
Verena Class, jornalista da Agência Carta Maior e militante, é o reflexo do jornalismo que tanto me apaixona. Histórias de reportagens ao lado militantes em ocupações pelo MST, Via Campesina, índios, enfim, tudo o que representa a luta pelos direitos dos povos.
Mylton Severiano, o Miltaynho, me fez respirar aliviada ao dizer que o diploma de jornalismo é totalmente dispensável. “O diploma elitizou a profissão”, afirma ele. Na tal faculdade de jornalismo nunca me senti uma aspirante a jornalista, naquele espaço 99% classe média, me sentia uma “enferma”. O Miltaynho explica esse termo: “Tem a ver com a constatação: se o jornalismo é isso que a mídia gorda faz, então não sou jornalista, mas enfermo; ou, ao contrário, jornalista sou eu, e eles, enfermos.”
Em uma determinada época de suas carreiras, a maioria desses jornalistas serviram com desgosto a mesa da grande mídia. Por uma questão moral acabaram buscando outros rumos mais coerentes com os seus princípios. É o caso do Renato Pompeu. Mas, ao contrário do que possam pensar certos desconfiados, a maioria dos jornalistas presentes no Anti-Curso não tentaram desestimular os jovens jornalistas a ingressar em um trabalho na mídia empresarial. É uma oportunidade para experiência, formação profissional e pessoal. Não há discursos saudosistas de implicância com a nova geração. O próprio Renato Pompeu ainda hoje escreve para o Diário do Comércio, muito a contragosto, segundo ele para pagar as contas, mas ele diz que existem limites, assim como uma prostituta: “Algumas coisas eu até faço, mas beijo na boca não”, ele brinca.
Georges Bourdokan contou histórias sobre viagens em companhia de beduínos e escorpiões no deserto e sobre as dificuldades em se fazer jornalismo no Oriente Médio, especialmente em Israel. Ressaltou como o jornalismo feito sobre essa região aqui no Brasil é devassado. “É um jornalismo que chama os sem-terra de invasores e a invasão do Iraque pelas tropas anglo-estadunidenses de incursão”, protesta o jornalista.
O Anti-Curso também teve como convidados os jornalistas Cláudio Tognolli e Marcos Zibordi, mas infelizmente não pude comparecer neste dia. Com o bom humor e a inteligência do chargista Claudius este Anti-Curso se encerra.
O jornalismo é um humanismo.
Ali, entre Caros Amigos, relembrei isto.
Não me senti mais “enferma”.