O sacríficio dos mártires.
Este era o fio da meada do último Basta! deste blog supostamente jornalístico, autor de uma angústia dispensável, excêntrica e grotesca. Esboço inacabado e sempre vacilante.
As manchetes dos jornais marginais espalhados pelo quarto provocaram um enternecimento quase nobre. Relembravam os extraordinários. 20 de novembro, Consciência Negra, Zumbi. Em Sierra Maestra, as comemorações do aniversário da morte do “Fuser”, Ernesto Guevara Lynch de la Serna. Aniversário da Revolução Russa Proletária, bolchevismo, Lênin, Trotsky, Alexandra Colantai.
Uma doce vertigem parecia propiciar um suave concerto de palavras. Afinal, o sangue derramado dos mártires parece ornar com destemor até mesmo os mais covardes, os pseudo-revolucionários cuja esperança arrefece à medida que perdem, ao passo que desistem antes mesmo de tentar. Fracos! Fraca!
Mas, as palavras heréticas, como sempre, parecem fluir mais facilmente. As nobres ambições deram lugar a um pessimismo covarde e consequentemente a um horror auto-punitivo. O fato é que tenho feito meu lar em um ninho estranho. Na ânsia de viver empiricamente tenho me silenciado em um abismo soturno e assustador. Na busca pelo clímax da vida e por uma novidade de espiríto enveredei por um atalho e os atalhos são perigosos. Na cura pelo constante enternecimento optei pelo entorpecimento para depois oscilar entre a culpa e a expiação. Senti repulsa por este mundo insano que me obriga à resignação e a polidez, porque o que eu queria mesmo era o grito, a vigilância e não o sono. Em nome do pungentemente real acabei anestesiada e vazia. Me chamei de beat, dionisíaca, procurei desvairadamente as portas da percepção citadas por Blake e tão exploradas por Jim. Estive à beira. Descaradamente, admito que gostei da busca.
Escrever sobre meus mais ternos mártires, agora, seria enveredar por conjecturas baratas com o odor de farsa e transformar o antigo idealismo tão espontâneo em simples retórica. Seria ainda mais dolorido, seria impossível. Porém, uma indagação prática surgiu: Serei capaz de abandonar nobremente? Ou sou daqueles que prosseguem obstinadamente esperando que algo aconteça?
Sei apenas que devo começar por aceitar-me e isso inclui conviver com o bem e mal dentro de mim, sem sentir o horror punitivo e maniqueísta de cada vez que caio. Eu, que chamei minhas causas de perdidas, percebo agora que perdi o espanto e o ardor, mas não a ternura e a indignação, caso contrário eu já teria queimado. Porém, continuo aqui me depurando, me reconciliando comigo mesma e com o mundo, negando o beijo sedutor da renúncia. Às vezes e, inesperadamente, ainda sinto o sangue quente dos mártires me convidando a marchar junto. Com imprecisão trêmula, uma imperícia ingênua e o habitual calafrio no ventre, persisto. O Basta! não ecoou. Ou pelo menos, não convincentemente.