27/08/2009

Qué hacer?


Queimar as fotografias de viagem. Arrancar deste mundo as marcas dos sonhos que já tive. Ah! Mil vezes a voracidade do fogo à poeira resignada. Em volta das chamas derramarei lágrimas de uma vingança estéril auto-infligida. Dedicar os sonhos à noite, somente à noite.


Parar! Parar de fotografar sonhos, parar de inventar sonhos à custa do sono forçado da razão, parar de ofender-me com a idéia (falsa idéia) de liberdade, parar de viajar sozinha em um mundo que me repele, parar de emprestar intensidade a tudo, ao que não merece, nada merece. Parar com a ânsia de agarrar o momento, parar com tudo. Caminhar em descompasso com a alma, em compasso com a engrenagem, apressada com o nada, ser nada.


Permitir! Permitir que o hábito anestesie a dor e a pungência de ver tudo, de sentir o estremecer de cada coisa tocada, de cada coisa vista, ouvida, despedaçar essa tensa corda de violino. Basta permitir. Permitir ser engolida pela inclemência das horas, pelas novidades tediosas que fazem o tempo correr desenfreado, não debochar do tempo, comprar calendários, sublinhá-los, comprar uma agenda, programar, agendar a vida, cravar um relógio no pulso, marcar o tempo, cifrá-lo, respeitá-lo.


Mutação! “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua casa metamorfoseado num inseto monstruoso”. Perder a humanidade para se tornar mais humana, ser parte da histeria coletiva. Recortar o excesso de personalidade, amoldar-se, estranhar-se, aviltar-se, desencantar-se, livrar-se da alucinada lucidez, transformar-se em monstro para obedecer cegamente à insistência da vida.


Sim! É isso. Agora, entendo. Agora, admito.


Bah! Pensando bem, fazer tudo isso daria um puta trabalho.


14/02/2009

Cerro de Sangre

Cerro Rico, Potosí, Bolívia


Bolívia, 1462. O imperador inca, Huayana Cápac, fica deslumbrado ao observar o monte chamado pelos aymarás de Sumaj Orcko (Cerro Rico, Morro Majestoso). Imediatamente, ordena a seus escravos que explorem a montanha. O inca quer ornamentar templos de seus deuses em Cusco. Aqui, metais e pedras preciosas não possuem valor monetário, apenas espiritual. Durante a expedição, os escravos foram interrompidos por uma voz forte, cavernosa, similar a um trovão. E dizia: “Não é para vocês. Deus reserva estas riquezas para os que vêm de longe”. Apavorados, os índios fogem. O inca decide não enfrentar a montanha e a abandona. Antes, dá ao local o nome de Potojsi, que em aymará significa tormenta ou estrondo. Ela permanece rica e esquecida por mais 30 anos até que, casualmente, o índio Diego Huallpa a liberta do silêncio.


A história é recriada nas artes. Artistas indígenas e mestiços que pintavam para a corte espanhola introduziam em suas obras o dramatismo de sua história. Mesclavam as expressões andinas com os valores europeus. “Virgen del Cerro” é a arte de um pintor desconhecido do século XVIII. Sintetiza em sua iconografia a descoberta de Cerro Rico, a partir dos rastros do índio Huallpa.


A Virgen del Cerro (autor desconhecido)


A tela e quem nela pinta são objetos da colonização e, como tais, devem retratar o mundo sob a perspectiva européia. Por isso a personagem principal é Virgem Maria. Mas, há coisas que não se moldam ao toque vulgar do colonizador. Para os andinos, a Virgem é, na verdade, La Pachamama, a Mãe Terra. O artista pintou no manto da virgem a descoberta de Cerro Rico. O índio Huallpa, pastoreava suas llamas. Uma delas foge. Ao anoitecer, ele a encontra no topo do monte. Estava frio e Huallpa acende uma fogueira. Com o calor, veios de prata escorrem da montanha e revelam seu segredo para sua eterna sangria. O repentino enriquecimento de Huallpa, induz ambiciosos a seguirem seus rastros e pouco tempo depois o imperador espanhol, Carlos V, se apodera de Cerro Rico “a serviço de Deus, nosso Senhor, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Na parte inferior da obra, autoridades civis e religiosas agradecem a Deus pela riqueza do Cerro, à esquerda o Papa, um cardeal e um bispo; à direita o imperador Carlos V e um cavallheiro de Santiago. No meio deles, um círculo, Potosí, o centro da economia e do poder do mundo ou o mundo aos pés da riqueza de Cerro Rico. Assim, morre Potojsi, como a chamavam os aymarás e nasce Potosí, porque assim é que o espanhol prefere pronunciar.


Desde então, a população de Potosí cresce vertiginosamente e sua riqueza financia a Coroa espanhola à custa do extermínio indígena. A acumulação de capitais do Velho Mundo é banhada pelo sangue dos índios. Os espanhóis determinaram que as tribos deveriam “contribuir” com a exploração e seus caciques foram obrigados a convocar nas aldeias índios para serem recrutados na exploração de Cerro Rico. Eles nunca mais voltariam. Trabalhariam até a morte dentro dos fornos infernais que eram as minas de Cerro.


Hoje, caminhar por Potosí, é sentir na alma a ofensa pungente que a opulência dos palácios coloniais ostentam, tudo edificado por uma riqueza que apenas amaldiçoou seu povo. Pior. Ainda resta no interior da montanha o testemunho vivo. A prata deu lugar ao estanho. Nas galerias cavadas ao longo da montanha sobrevivem homens quem arranham os restos de uma herança amaldiçoada.


Mineirador de Cerro Rico

Por um salário que não ultrapassa 30 doláres mensais, eles são tragados pelas profundidades claustrofóbicas da montanha em um trabalho braçal, extenuante, desumano. Lá dentro, onde o simples ato de caminhar é penoso devido ao ar rarefeito e à temperatura insuportável de 45º, esses homens rastejam, martelam, içam, carregam e empurram toneladas. Quando saem, depois de 12 ou 14 horas de trabalho, não são mais do que espectros de si mesmos. O almoço se resume a mascar folhas e folhas de coca para anestesiar a fome e o cansaço. Antes de voltar às minas tomam álcool puro.

Lá fora, as crianças filhas de mineiros, vendem exemplares de pedras contendo estanho como souvenir a turistas. Lá fora, um grupo de turistas se diverte às gargalhadas tentando explodir a dinamite utilizada pelos mineiros. Lá fora, uma senhora indígena estende seus braços implorando por esmolas em um suplício desesperado: “Ajuda-me, ajuda-me”.


Antes da chegada dos espanhóis Cerro Rico estava coberta de arbustos. No cume predominava uma coloração marrom devido a abundância de paja brava, vegetação utilizada como alimento de llamas e alpacas e na construção das casas. Aos seus pés floresciam diversas espécies de plantas nativas com múltiplos usos. Esse manto vegetal foi mudando gradativamente à medida que a montanha engolia e matava os índios. Em Potosí se afirma que com o mineral que os espanhóis roubaram seria possível construir uma ponte de prata entre Potosí e Madri e outra ponte similar com os esqueletos dos índios mortos na exploração cruel desses 300 anos. Hoje, Cerro Rico é vermelha e oca. Pelo sangue derramado em suas entranhas os aymarás a chamaram de Wuila Ckolo, Cerro de Sangre.