27/08/2009

Qué hacer?


Queimar as fotografias de viagem. Arrancar deste mundo as marcas dos sonhos que já tive. Ah! Mil vezes a voracidade do fogo à poeira resignada. Em volta das chamas derramarei lágrimas de uma vingança estéril auto-infligida. Dedicar os sonhos à noite, somente à noite.


Parar! Parar de fotografar sonhos, parar de inventar sonhos à custa do sono forçado da razão, parar de ofender-me com a idéia (falsa idéia) de liberdade, parar de viajar sozinha em um mundo que me repele, parar de emprestar intensidade a tudo, ao que não merece, nada merece. Parar com a ânsia de agarrar o momento, parar com tudo. Caminhar em descompasso com a alma, em compasso com a engrenagem, apressada com o nada, ser nada.


Permitir! Permitir que o hábito anestesie a dor e a pungência de ver tudo, de sentir o estremecer de cada coisa tocada, de cada coisa vista, ouvida, despedaçar essa tensa corda de violino. Basta permitir. Permitir ser engolida pela inclemência das horas, pelas novidades tediosas que fazem o tempo correr desenfreado, não debochar do tempo, comprar calendários, sublinhá-los, comprar uma agenda, programar, agendar a vida, cravar um relógio no pulso, marcar o tempo, cifrá-lo, respeitá-lo.


Mutação! “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua casa metamorfoseado num inseto monstruoso”. Perder a humanidade para se tornar mais humana, ser parte da histeria coletiva. Recortar o excesso de personalidade, amoldar-se, estranhar-se, aviltar-se, desencantar-se, livrar-se da alucinada lucidez, transformar-se em monstro para obedecer cegamente à insistência da vida.


Sim! É isso. Agora, entendo. Agora, admito.


Bah! Pensando bem, fazer tudo isso daria um puta trabalho.