01/11/2010

Los 33

Reza a lenda andina que nas entranhas de uma montanha do Deserto do Atacama trinta e três homens ficaram confinados a setecentos metros de profundidade em uma mina de ouro por sessenta e nove dias.


Lá dentro os homens arranham a montanha em busca de ouro. Martelam, içam, carregam e empurram toneladas. Sob a luz bruxuleante movimentam-se em uma mudez solidária, vagam na solidão das sendas, se fundem no silvo das máquinas. Em alguns trechos das galerias caminham encurvados, semiagachados ou rastejam-se penosamente em uma temperatura sete graus acima da superfície. Tudo isso sob uma sensação claustrofóbica. A montanha lhes oferece em troca do ouro um torpor morno e uma fadiga vertiginosa; ressoa cavernosamente seu bafo pegajoso como um monstro em repouso; abriga os homens em sua umidade morna e os molda à sua imagem, ao tom de sua secura ou viscosidade. Lá fora os homens depositam o punhado de ouro nas mãos avarentas e trêmulas do Velho Capital.

Neste dia normal de trabalho uma enorme rocha desaba sob a entrada da mina. Os mineiros sentem um estremecimento, ouvem um estrondo e uma grande nuvem de poeira embaralha seus sentidos. Segundos depois do atordoamento inicial os mineiros começam a percorrer as galerias e procurar uma saída. Esgotadas as possibilidades constatam que estão presos. Um bulício desesperado é calado por uma voz imperativa. Questão de ordem! Um mineiro pede calma. Se reúnem, esperam. As horas passam. Chega a noite. Corre o dia. Chega a outra noite. Amanhece. Percebem que precisam de medidas para mantê-los vivos o máximo possível. É preciso viver.

Os suprimentos só vão durar mais um dia. É preciso racionar. Sobrevivem durante dezessete dias com duas colheres de atum enlatado, um gole de leite e meio biscoito a cada 48 horas. Depois passam três dias sem comer e bebendo somente água. No vigésimo primeiro dia os nervos se alteram, os mineiros se dividem em dois grupos isolados em galerias diferentes. No vigésimo terceiro dia, esquecidos da cultura e desobrigados moralmente pela fome um dos grupos sequestra durante a noite um dos mineiros do outro grupo. Com marteladas o mineiro é assassinado e sua carne rasgada com picaretadas. Os mineiros se banham no sangue e se fartam em sua carne. Os mineiros do outro grupo invadem a galeria onde o ritual antropofágico se passa. Se revoltam, avançam sobre os mineiros canibais. Matança alucinada. Os feridos que sobrevivem agonizam va-ga-ro-sa-men-te. Foi um contorcer de corpos, um arquejar bestial, um esticar de beiços, um ranger de dentes, um espumejar de sangue e saliva, um estremecimento gélido, uns queixumes, umas ladainhas, um arregalar de olhos, um agarrar não-sei-quê como quem tenta agarrar a vida, por fim, um revirar de olhos medonho, um arranque pra cima, o afago de uma lágrima lenta e a morte. Horas de Horror sepultadas como segredo da montanha.

Los 33 e a Fênix

Não, a lenda não existe. Os mineiros foram resgatados não por uma dessas divinas providências, mas pela genialidade humana. No décimo sétimo dia os mineiros foram descobertos e cinquenta e dois dias depois resgatados pela criação humana chamada cápsula Fénix 2 que realizou setenta e tantas viagens de subidas e descidas ao subterrâneo para resgatar os trinta e três mineiros.

As idiossincrassias da história real superam em beleza o horror da fábula. Pablo Rojas, por exemplo, um dos mineiros disse que se casaria com sua namorada com quem está comprometido há VINTE E CINCO ANOS. Era SÓ isso o que ele precisava pra ter certeza que ela é a pessoa certa: ser confinado por 69 dias. Pra refletir melhor, colocar as ideias no lugar. Saca? Outro mineiro, Esteban Rojas Carrizo, é um grandiosíssimo hijo de puta. Casado há 28 anos, tem uma amante que teve a ousadia sem-vergonha de esperá-lo no acampamento construído aos pés da montanha para recepcionar os mineiros. Esposa e amante duelam e, por fim, a esposa abandona o acampamento e Rojas é recebido com beijos tórridos pela amante. O outro, Juan llanes Palma, quando questionado sobre como foi viajar na Fénix, diz docemente, “Excelente, foi como um cruzeiro”. O outro, Mário Sepúlveda, sobe a cápsula gritando VIVA CHILE......mierda! E teve que ser apressado (depois de sessenta e nove dias!) por um dos integrantes da equipe de resgate para sair da mina. E resmunga um tranquilo Já vou, já vou. Tsc, tsc. E se a caverna lá de fora tenta ofuscar a lucidez, o mineiro Franklin Lobos é imperdoável Não somos heróis. Limitávamo-nos a lutar pelas nossas vidas, porque temos famílias. Somos, isso sim, vítimas dos empresários que não investem na segurança. E houve governo representativo nas minas Tudo era submetido a votação, Éramos 33, portanto 16 mais um era uma maioria diz Luiz Ursúa. E houve pacto de sangue na mina, confessou dia desses Mário Segovia O que acontece na mina, fica na mina. E se o show quer transformar os mineiros em estrelas, Sepúlveda responde galhardamente Não quero que me tratem como artista, nem como animador, mas como Mário Sepúlveda, como trabalhador, como mineiro. E que sensação morna e ingênua deu no peito da gente esse recadinho deles: Estamos bien, los 33 en el refugio.

Mirem o espetáculo de humanidade (em absolutamente todos os seus sentidos) quando as riquezas produzidas pelo trabalho dos indivíduos se tornam assim, de repente...genéricas. Sem Fênix, o que seria destes homens? Nenhum realismo fantástico pode imaginar. A Fênix 2, essa objetivação que coagula em si as conquistas da humanidade, em termos do que foi construído, que convergiu em si a criatividade, a multiplicidade de gostos e aptidões, a realização da liberdade das individuações, da sociabilidade, da universalidade, da consciência, ou seja, do desenvolvimento multilateral de todas as capacidades e possibilidades humanas desenvolvidas no intercâmbio universal, a evolução de todos os poderes humanos em si...por meio segundo histórico esta criação pareceu genérica. Todo um aparente caos de categorias e objetivações...tu-do ordenado nesta criação para a providencial salvação dos homens. Pertenceu aos mineiros, e assim pertenceu a humanidade inteira neste breve segundo.

Eu? Acho incrível.

Mas riqueza genérica tem preço. E o custo do resgate já foi computado: vinte e dois milhões. E renderá mais e mais. E mais mineiros morreram semana atrás no Equador. Mas o show já acabou. O ouro e a prata da América Latina foram saqueados há séculos e está ornando a Europa. Mas ainda hoje os mineiros estão raspando o pouco ouro e prata das montanhas andinas para sustentar uma vida pouca. E onze mineiros foram mortos dia dezessete em uma mina na China. E não teve Fênix que os salvasse.