29/03/2011

O mínimo

Muita parra e pouca uva no debate em torno do novo valor do salário mínimo. Governo federal, oposição e centrais sindicais enfrentaram-se em uma balbúrdia de lances: 540, 545, 580, 600! Nem tanto ao mar, nem tanto a terra: o novo valor do salário mínimo foi definido em R$ 545,00. Deu bode! Para os trabalhadores, claro.

A oposição (quem diria!) jogou alto: R$ 600,00. Mas macaco velho sabe que debaixo desse angu tem carne. Em que pese (e não pesou!) os anos de arrocho salarial promovidos, outrora, pelo bom governo do PSDB. Mas o partido não se deu por achado: foi pregar em outra freguesia. Depois de dar com os burros n’água e amargar uma pesada derrota na votação do salário mínimo na Câmara e no Senado, a oposição agora prepara o bote: a chamada “operação obstrução” - formas de arrastar as discussões para mudar ou mesmo paralisar as propostas enviadas pelo Executivo ao Congresso.

Os sindicalistas levaram a manta naquele acordo de 2008. O acordo feito pelo governo Lula com as centrais sindicais definia que o reajuste do mínimo seria calculado pela inflação do ano anterior mais a variação do PIB de dois anos antes, ou seja o reajuste de 2011 deve ser a inflação de 2010 mais a variação do PIB de 2009. A regra é clara tanto tanto nas épocas de vacas gordas quanto na de vacas magras. Agora ficava chato dar uma de joão-sem-braço e pedir um aumento maior. Os sindicalistas defenderam o aumento de R$ 580,00. Azularam e ainda levaram tábua.

O Governo, de primeiro, pediu muita cautela e caldo de galinha. “Nesse momento é temerário a gente aumentar o valor acima de R$ 540. O Governo vai batalhar para que essa seja a decisão que vai prevalecer. Se vier alguma coisa diferente, nós vamos simplesmente vetar”, disse o Ministro da Fazenda Guido Mantega. É temerário! Que escandâlo de palavra. Já imagino uma grande tragédia assolando o Palácio do Planalto com blocos gigantes contendo R$ 540,00 e ministros com suas gravatas esvoaçando catando notinhas nos jardins de Burle Marx.

Por fim, o governo federal preocupado com o ajuste fiscal, uma conta ali, outra acolá, o compromisso com o capital, sacumé - deu zebra: R$ 545,00. Sem choro, nem vela. A Câmara dos Deputados mostrou que não é casa da Mãe Joana: “enquadrou” deputados do PT e partidos aliados. Alguns governistas ficaram debaixo do balaio em nome da santíssima disciplina partidária.

Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas. Um bocado de dialética nestas linhas tortas não seria de todo o mal. Quiça tapeie os desavisados, ludibrie os incautos, distraia os bocós, além de dar para esta pena um pouco mais do que fazer. Pois bem. E a alta dos juros? Causadequê? Ok, freia a demanda, amarra a inflação. Como? Por que? Os arautos da real politik pregam que com a alta de juros os indivíduos e as empresas –os chamados agentes econômicos, na fala de Joelmir Betting – tenderiam a ser mais atraídos para poupar seus trocados devido à remuneração oferecida pelo setor financeiro e direcionar menos recursos para o consumo. Resumindo, haveria uma tendência a reduzir a pressão da demanda sobre a oferta existente. E com isso, afastaria o monstro da inflação, resultado desse descompasso entre uma demanda crescente e uma incapacidade da oferta de se recompor no curto prazo. Ok. Só isso? Não. E todo o resto?

A taxa de juros nas nuvens provoca um afluxo de recursos externos em níveis elevados, que pressionam nossa taxa de câmbio: o real fica cada vez mais forte em relação ao dólar. Com isso, torna-se periclitante a situação de nossas contas externas. As importações ficam artificialmente baratas. As nossas exportações ficam menos competitivas, especialmente as de produtos industrializados. Aí, a Balança Comercial fica deficitária. Aí, investidores do mundo inteiro despejam aqui dinheiro que não vem pra investimento, mas pro cassino financeiro. Sem falar no estrago sem precedentes na indústria nacional. Fica muito mais fácil importar do que produzir qualquer coisa aqui no Brasil. E assim nossa fazendinha poderá fornecer grãos e carne para os europeus. Salve a indústria nacional - implora o eterno ruído dos ossos de Vargas. Cloc, cloc, cloc.

E tem mais: juros altos fazem a alegria dos banqueiros e daqueles que vivem de aplicar dinheiro à taxas monstruosas, “ajudando” assim a financiar a dívida pública (sempre crescente, por causa dos juros!). “É preciso primeiro cortar os gastos públicos”. A velha lenga-lenga. “Precisamos fazer a lição de casa”. Dilma fez exatamente isso, com o corte recente de 50 bilhões no Orçamento. E elevou os juros ao mesmo tempo. O que reduz o PIB que está relacionado ao aumento do salário mínimo. Que continua sendo mínimo (?!) Há! Entonces, que briga de foices e martelos emplacar? Vale a pena jogar com pau de dois bicos? Qué hacer?

Mas águas passadas não movem moinhos. Para melhorar a relação com centrais sindicais após o embate sobre o valor do salário mínimo, a presidente Dilma Rousseff resolveu lhes fazer um cafuné: regulamentou lei que dá assento aos trabalhadores nos conselhos de administração de empresas controladas pela União.

Os trabalhadores ficaram naquela: sem eira, nem beira. Trinta e cinco mangos mais polpudo e com uma consciência de classe que aconselha não olhar os dentes de cavalo dado. Sem tugir, nem mugir, vai perdendo a tramontana. Mas se a dor ensina a gemer o pobre sabe que jacaré que fica parado vira bolsa. Sabe também que barco parado não faz viagem, mas também sabe que com uma maré dessas é que o bote não sai mesmo.