
É dia de buscar leite em uma dessas lentas aldeias.
Primeiro é o caminhão ronronando preguiçosamente na subida íngreme. Depois é o arrastar das caixas de leite: do fundo do caminhão até a mão do lado de fora, da mão para o chão, do chão um looongo arraste até o fundo de um obscuro corredor burocrático onde o bom leite é recebido, carimbado e rotulado. Na modorra simples e ingênua começam a chegar os moradores recém saídos das vielas opacas de casas fadigadas e tristes. Eles vem buscar leite. Um sol inclemente os abriga na longa fila de espera. De primeiro um burburinho tímido com o-de-trás-da-fila, logo mais uma confusão babilônica de contos de ontem, de ânsia do hoje, de espera do amanhã. Nada mais que a roda-viva da vida nestas rodinhas vulgares.
Por fim, o leite é entregue. Dona Cida - senhora de 50 e tantos anos, castigada pelo fumo, ex-tuberculosa - é a distribuidora da dádiva pública. Tosse e catarrea enquanto chama a senha dos contemplados. Somente famílias com crianças ou idosos podem receber. E quando sobra leite os “encaixados” também podem se beneficiar. E quando não tem leite? Ah, quando não tem leite...
- Tem leite, não?
- Não, caminhão não veio não...
- Veio não? Oh-meu-deus...
Solta uns muxoxos, um vulgar obrigado. Para. Se escora na porta com aquela cara de cão batido dos estropiados e lamenta. Lamenta o caminhão não vindo. E nem tem muito o que protestar, afinal, é o caminhão que não veio do fantástico Mundo dos Caminhões de Leite. E que mais se pode esperar de um velho a quem acabou de se recusar um saco de leite?
O que esse povo precisava é de uma vaca. Sim! Uma vaca bem que viria a calhar por estas bandas. Uma não, pelo menos umas duas ou três para não sobrecarregar as tetinhas de uma vaca só. Esse pessoal gosta tanto de leite e são tão precisados. Eu cá comigo, fico matutando, remoendo e achando tudo isso de uma perversão vergonhosa. Me dói todo meu ser-humano vê-los ir embora com sua sacolinha vazia e resignada. Isso embrulha meu coração como um sujo papel embrulha qualquer coisa.
Não é supervalorização do leite não, gente. É leite, poxa vida. Não devia ser certo deixar gente sem leite. Crianças, velhos. Ora essas, gente de todo tipo. Porque tanta ansiedade por um saquinho de LEITE? Senhas? Encaixe? Cadastro censitário? Todo mundo devia poder beber leite como se fosse a coisa mais natural deste mundo. Mas se não houver ao menos um pingado de manhã ou um leite com Toddy como poderá a família viver com decência? Aquele pedreiro precisa de ao menos um pingado antes de sair de casa. Que fará a família nas noites de inverno sem um leitinho pra aquecer? E as crianças sem bigode de leite? E as mães que ralham com as crianças que tem que tomar leite? Imaginem um desses meninos peraltas nunca marcados por uma nódoa de leite na camisa da escola. Que honras poderá esperar essa criança na vida, se a inicia assim sem a menor dignidade?
Gente, gente...
Há qualquer coisa de intolerável nisso tudo até mesmo em meio as outras tantas coisas intoleráveis. Algo de um absurdo perverso até mesmo para nossos sentidos embotados.
Ponhamo-nos melancólicos todos, oras: falta leite!?
Valha-me-deus: eles não dividem túnicas, nem pães, nem peixes, nem leite. Inútil Jesus.
Trabalhadores: do seio de teu trabalho não pinga nem leite e tuas crianças continuarão a crescer magras e ignorantes. Perverso Trabalho.
E este leite doado, não serve pra beber não, senhor.
É ruim!
Ruííím que é o diabo.
É só pra doce.
E queijo.