11/09/2011

Meninas do Arrastão

O arrastão não foi de gente grande, não. Arre! Umas bichinhas sem nome, desmilinguidas, esmolambadas, remelentas, menos-que-meninas, entre o bicho e o homem, entre a besta dura e o cancro mole da cidade. Praticam arrastões nas ruas da cidade. Praticam arrassões nesta grande batota universal, diriam os delicados. 

Li nos jornais que no começo elas só pediam. Sim, senhor, pois muito que bem, bonita ação para se escrever. Digna dessa sovinicezinha: só pediam. Pequeninas ruindades serenas que só as palavras permitem. Não nos indignemos! Este é o mote que tem nos arrastado a todos.

Li nos jornais que pararam de pedir e começaram a roubar. Ah, que peçam incontinentis, decretadas, que cumpram pobreza, nisso não há mal algum.  Mas pararam. De pedir. E belo dia, começaram. A roubar. Como se pedir fosse assim, um gesto sereno e roubar fosse assim um que-não-diga! Expr’rimentem, senhores da pena. Roubem uma vezinha ao menos. Imaginalmente tentemos perceber, sub’entender: as pernas lhes tremem a multidão outrora indiferente de repente  corre-lhe atrás como que atrás de um inseto, está aguada - a menina - como mula que muito carregou, arregalada, as ruas se embaralham, e custa achar um beco, uma caixa, uma ponte, um forte,  custa a respirar, a pontada, pordeus, a pontada... És uma ignorante. O que tu tens é pavor e não sabes as palavras. Pobre besta!

Dizem os jornais que para elas São Paulo é uma Disney.  Disney, pasmem! Sim, a vida para elas é, definitivamente, este exercício lúdico, este jogo alegre. Grandes patetas essas pequenas lázaras que vão dormir mortalmente tão serzinhas e sós com os trapos sob um céu salpicado de estrelas impassíveis, com o estômago a ganir de fome nesta Disney que exala urina, merda e gozo, para logo mais sem que a cidade chore, sequer saiba, extinguirem-se como pavios.  

Dizem os jornais que são a gangue das garotas. E se um dia o Livro da Verdade fosse aberto? Hã? Medo! Que história contaria dessas meninas? E se lá houvesse uma frase curta assim-assim: nossa intenção foi nos unirmos para tentar sobreviver...não irão acreditar. Nesta gangue, diz o Livro, dorme-se na mesma beira, cobre-se com os mesmos trapos, come-se o mesmo pão de bagaço, os mesmos nacos, os mesmos talos, os mesmos fados. 

Os jornais dizem também que as instituições públicas querem retirar as crianças e famílias da situação de risco. Não sei, mas isso me pareceu assim de longe que quem está em risco são os comércios. E no Livro da Verdade uma delas, arrisca: 

sei não, mas se só pedíssemos haveria risco? 

Não sabem de nada, mas desconfiam de muita coisa. Todas iguais, todas sofredoras, uma gangue entre milheiros de gangues, todas ignorantes do mal que fizeram para merecerem tal castigo. E para elas não haverá mais vida que este arrastamento.