Temos
padecido da solidão mais perversa. Não, a solidão dos entremeios da tua metafísica
vasta e grande e poética. A solidão do arrenegado inviolável que pede arrego
encostado ao azulejo do banheiro sob os pingos avarentos de um chuveiro de cínico
chuveiro de hotel. A solidão em todos os lugares, de todos os tons,
cosmopolita, implacável. Solidão insone.
E
o amor resultou, de fato, inútil. Amor profundo. Pra que profundo se manco?
Amor com asterisco, amor com nota de rodapé. Ama-se inconteste para companhia
na solidão. Amor necessário. Por que necessário se inútil? Solidão áspera.
Pediu
quatro coisas à deus: mulher, dinheiro, saúde e feijão. Deus, humildemente, tem
lhe abençoado nesses sessenta anos amarrotados com feijões vulgares. Na tarde
premiada de folga, depois de uma quarentena de trabalho, no banco desta praça
republicana, as mãos aduncas do velho garçom salvaguardam o magote de notas
loto fácil. Na despedida fria desaparece pequenino qual menino chapliniano
abandonado na guia suja. Que será deste sexagenário garçom sem aposentadoria
com essa bagatela de papéis frios guardando minuto antes da nova quarentena.
Deus nos abençoe. E que nos vámonos! Nós que nada temos que ver com isso.
Solidão estúpida de bando.
Tropeçar
cego na ferida aberta no asfalto. Com os lábios enojados. No espaço
invisível da perna do coxo. Homem de meias partes com tigela para meias patacas
de esmola. Ouvir o obrigado formal. Um deus-abençoe displicente. Uma solidão de
herege no deserto.
Os
sapatos estragados, um cheiro estragado de escravo velho. A alma
desbotada no encalço de um cheque não depositado. Sem conhecidos. O estômago
colado nas costas. Solidão de bicho sem toca.
Espancado
desde doze anos virou bicho. Matou filho, matou a mulher, matou a sogra. Foi na
cidade de “Muitos Capões”. Juramos! Foi achado no mato, numa toca. Balbuciava.
Solidão de carrasco.
Precisava
desentulhar humanos da unidade de cuidados intensivos. Por isso, matava. Mais
carcaças chegavam logo mais. Dia após dia, sirene após sirene. Por isso, ela
matava. Solidão de bárbara na guerra.
Arrebentou-se todo. Pulou de pinheiro em pinheiro qual peter pan. Queria brincar. E era deveras velho e ridículo. Perna, quadril e tórax. Esbagaçou-se tudo. Tem cabelos brancos e juízo de deficiente mental. Solidão de mentecapto.
Conserta
tudo: lavadoura, geladeira, freezer, fogão a gás... Prega papel ousado em terra
pagã: “qualidade, limpeza e honestidade.” Solidão quixotesca.
Tinha
brinquedos em miniatura no quartinho. Era auxiliar de limpeza, importante
dizer. E só. Escusado dizer. Disse no diário que não iria mais sair. Tinha
moedas para uma esmola. Escrito está em seu diário, e deus e o diabo é que
sabem onde está: que sofrer, bem que sofrer não iria mais. Morreu no
desabamento na Avenida Paulista. O gerente lhe faz às honras às portas da
morte. E nunca existiu. Solidão de inseto.
Destas
solidões, que malbaratam o espírito, que se sente mas não se toca, que se ouve
mas não tem som, que se grita, mas não tem voz, nasce a dor. Que não se sabe o
que fazer com ela.