22/08/2013

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Temos padecido da solidão mais perversa. Não, a solidão dos entremeios da tua metafísica vasta e grande e poética. A solidão do arrenegado inviolável que pede arrego encostado ao azulejo do banheiro sob os pingos avarentos de um chuveiro de cínico chuveiro de hotel. A solidão em todos os lugares, de todos os tons, cosmopolita, implacável. Solidão insone.

E o amor resultou, de fato, inútil. Amor profundo. Pra que profundo se manco? Amor com asterisco, amor com nota de rodapé. Ama-se inconteste para companhia na solidão. Amor necessário. Por que necessário se inútil? Solidão áspera.

Pediu quatro coisas à deus: mulher, dinheiro, saúde e feijão. Deus, humildemente, tem lhe abençoado nesses sessenta anos amarrotados com feijões vulgares. Na tarde premiada de folga, depois de uma quarentena de trabalho, no banco desta praça republicana, as mãos aduncas do velho garçom salvaguardam o magote de notas loto fácil. Na despedida fria desaparece pequenino qual menino chapliniano abandonado na guia suja. Que será deste sexagenário garçom sem aposentadoria com essa bagatela de papéis frios guardando minuto antes da nova quarentena. Deus nos abençoe. E que nos vámonos! Nós que nada temos que ver com isso.  Solidão estúpida de bando.

Tropeçar cego na ferida aberta no asfalto. Com os lábios enojados.  No espaço invisível da perna do coxo. Homem de meias partes com tigela para meias patacas de esmola. Ouvir o obrigado formal. Um deus-abençoe displicente. Uma solidão de herege no deserto.

 Os sapatos estragados, um cheiro estragado de escravo velho.  A alma desbotada no encalço de um cheque não depositado. Sem conhecidos. O estômago colado nas costas. Solidão de bicho sem toca. 

Espancado desde doze anos virou bicho. Matou filho, matou a mulher, matou a sogra. Foi na cidade de “Muitos Capões”. Juramos! Foi achado no mato, numa toca. Balbuciava. Solidão de carrasco.

Precisava desentulhar humanos da unidade de cuidados intensivos. Por isso, matava. Mais carcaças chegavam logo mais. Dia após dia, sirene após sirene. Por isso, ela matava. Solidão de bárbara na guerra.  

Arrebentou-se todo. Pulou de pinheiro em pinheiro qual peter pan. Queria brincar. E era deveras velho e ridículo. Perna, quadril e tórax.  Esbagaçou-se tudo. Tem cabelos brancos e juízo de deficiente mental. Solidão de mentecapto. 

Conserta tudo: lavadoura, geladeira, freezer, fogão a gás... Prega papel ousado em terra pagã: “qualidade, limpeza e honestidade.” Solidão quixotesca.

Tinha brinquedos em miniatura no quartinho. Era auxiliar de limpeza, importante dizer. E só. Escusado dizer. Disse no diário que não iria mais sair. Tinha moedas para uma esmola. Escrito está em seu diário, e deus e o diabo é que sabem onde está: que sofrer, bem que sofrer não iria mais.  Morreu no desabamento na Avenida Paulista. O gerente lhe faz às honras às portas da morte. E nunca existiu. Solidão de inseto.


Destas solidões, que malbaratam o espírito, que se sente mas não se toca, que se ouve mas não tem som, que se grita, mas não tem voz, nasce a dor. Que não se sabe o que fazer com ela.