Bendito seja o MST
Sábado, 01 de setembro, Universidade Metodista. Dia de conhecer assentamento do MST. E segue a turma universitária rumo ao laboratório da vida real. No fundo do ônibus, estudantes de filosofia (ou filósofos estudantes), empolgados com o conhecimento, discutem de Nietzsche a Marx, de Foucault a Raul Seixas.
Entre conversas, risos e reflexões caladas, o ônibus segue sua viagem rumo à cidade de Guararema, interior de SP. Parada rápida na Escola Nacional Florestan Fernandes, obra inaugurada em 2006. A Escola carrega o nome do Mestre e no interior só se sente o espírito dele e de outros Mestres. “Camilo Vive”, diz o pôster vermelho pregado em uma das repúblicas, em homenagem ao primeiro padre guerrilheiro na América Latina. Na sala de aula, janela com vista para a terra conquistada, um professor carismático arranca risadas de seus alunos entre um retrato de Marx e outro de Florestan Fernandes.
Sábado, 01 de setembro, Universidade Metodista. Dia de conhecer assentamento do MST. E segue a turma universitária rumo ao laboratório da vida real. No fundo do ônibus, estudantes de filosofia (ou filósofos estudantes), empolgados com o conhecimento, discutem de Nietzsche a Marx, de Foucault a Raul Seixas.
Entre conversas, risos e reflexões caladas, o ônibus segue sua viagem rumo à cidade de Guararema, interior de SP. Parada rápida na Escola Nacional Florestan Fernandes, obra inaugurada em 2006. A Escola carrega o nome do Mestre e no interior só se sente o espírito dele e de outros Mestres. “Camilo Vive”, diz o pôster vermelho pregado em uma das repúblicas, em homenagem ao primeiro padre guerrilheiro na América Latina. Na sala de aula, janela com vista para a terra conquistada, um professor carismático arranca risadas de seus alunos entre um retrato de Marx e outro de Florestan Fernandes.
Mas, nem só do passado vive o homem. Por isso, a Escola também é decorada com fotos dos próprios sem-terra: camponesa com chapéu de palha e enxada na mão, cortador de cana em sua labuta no canavial, criança brincando com a terra, criança na escola.
Na parte externa da Escola, república para os estudantes e uma ponte de uma beleza agreste que só poderia mesmo dividir a área pertencente ao MST e o único pedaço de terra ocupado. Na terra: mudas plantadas. Por que, de terra ocupada pelo MST, só se produz isso: comida.
A viagem continua com os corações mais leves e realizados, ansiosos pela chegada ao assentamento. Impressionados. Emocionados. É assim que os olhos de quem é apaixonado por esse movimento ficam ao ver o que, de fato, significa esse movimento. Dá certo! É isso o que ficou implícito em cada canto desta Escola.
Ônibus de novo "comendo poeira" com destino ao assentamento, paisagem muito verde e cinza ao mesmo tempo. Casebres com homem da terra amansando cavalo, vaquejando gado e cuidando da plantação. No meio do desmatamento e do gado magro um outdoor que diz: “CONDOMÍNIO FECHADO, a vida que você sempre quis”. Ao redor de cada placa sempre terra pobre e cinza, mato queimado e cerca. Terra pobre para produção de alimento, rica para o cimento das mansões do homem do asfalto.
Chegamos ao assentamento e quem nos recebe é D.Maria, chapéu de palha na cabeça, andar manso, fala simpática, abraço aconchegante. Subimos a estradinha de terra rumo ao local onde a bandeira do MST estava fincada. Vermelha, flamejante, parecia gritar vitória ao balançar dos ventos.
No caminho, riacho com água limpa e refrescante, mata fechada, criança andando à cavalo na rua chamada “Revolução”, cada casinha com seu homem da terra e sua terra demarcada, ansiosa para ser trabalhada, cheiro do eucalipto plantado para gringo, que será substituido por comida. D.Maria aponta lá longe, os traços dos vales que determinam os limites das terras ocupadas pelo MST. É terra demais. Dá gosto de ver. A visão das várzeas e das plantações de arroz revigora os olhares.
Subindo morro, D.Maria vai respondendo às perguntas dos estudantes e suas lupas. Para cada pergunta, digamos surreal (pra dizer, no mínimo), D.Maria respondia com palavras sábias. “E as crianças pequenas de 1 ano, 2 anos...”. pergunta a figura. “Só brinca, vai fazer o que, né?”, responde D.Maria, com uma calma inexplicável. “Depois vai estudar, aqui no MST criança tem que estudar e não trabalhar”, complementa ela. Pergunto à D.Maria de onde ela é e como se envolveu com o MST. “Sou baiana. Ah, cansei sabe? De ser explorada por patrão. Aí conheci a luta e não parei mais não. E continuo porque gosto, né? Creio nisso.” responde ela. Fito o rosto simpático dela e pergunto novamente “Gosta mesmo?” (só para ouvir de novo). “Gosto, ah se gosto”, responde ela sorrindo largamente.
Lá de cima do murro, ela grita para o vizinho:
“SIMBORA OCUPÁ?”
Os estudantes caem na risada e esperam a resposta:
“VÁ LÁ, QUE EU JÁ TÔ INDO? FEZ CAFÉÉÉ, D.MARIA?
Berra o vizinho do outro lado.
Mais risadas.
Concluindo a viagem, descansamos na casa do seu Domingos. Sentamos no sofá, tivemos breve aula de agronomia, tomamos a cachaça oferecida. “É sério?” perguntamos quando ele a oferece: “Tá aí, do lado do fogão. É da boa, pode tomar”, diz ele. Risadas satisfeitas. Esse é Seu Domingos. Recebendo 40 intrusos e com um sorriso largo estampado.
Agora, só restava descer a ladeira, com a alma revigorada e a paixão ainda mais exacerbada. E nunca, essa frase pareceu mais apropriada:
“Bendito seja o MST, se ele não existisse teríamos que inventá-lo”.
6 comentários:
Putz, Su!! Que puta texto! Tava buscando inspiração pra descrever tudo o que vimos e sentimos ontem. Foi mesmo incrível. Maravilhosa a hospitalidade, a simplicidade daquelas pessoas. Foi um dia inesquecível...
Tá realizada agora, hein? Descrição perfeita, vê se convida da próxima vez...
Beijão
Publica isso aê em alguma revista, jornal, outdoor, poste, sei lá...qualquer lugar. As pessoas tem que ver isso e só de ler o seu texto dá pra sentir também.
rs parabens, plantação de alguma coisa, homem asfaltado...D. Maria é uma figura heim???gostei da forma que a descreveu, me apaixonei por ela rs
Que legal onde ira agora? Num presidio(Mulheres privadas de liberdade)existem trabalhos voluntarios que você pode se envolver ai rsrs, é brincadeira mais é verdade, mais não me convida rs foi muito bom ler o seu texto...utill
O MST nos traz uma sensação de mudança.
Uma mudança que começa conosco, em nosso próprio interior.
Algo que só acontece vendo de perto, conhecendo a face de algumas das pessoas que atuam no movimento.
Pessoas que nos inquietam e nos enriquecem com o espírito de sua luta.
Pessoas que, semelhantes a Dona Maria e ao Seu Domingos, respiram e transpiram ares de uma mudança que, tão lenta e simples, só faz sentido e só pode ser sentida por quem entende ou acredita na ação como construtora do destino.
Também quero ir na próxima visita, também quero ir “simbora ocupá”! Rsrs...
Beijos Suelen!!!
O TEXTO FICOU JÓIA, MUITO FIEL.
ME FEZ REVIVER AQUELES MOMENTOS SENTINDO A MESMA EMOÇÃO. QUE PRAZER!!!
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