23/01/2008

E eu que pensei que seria o último Basta!

O sacríficio dos mártires.

Este era o fio da meada do último Basta! deste blog supostamente jornalístico, autor de uma angústia dispensável, excêntrica e grotesca. Esboço inacabado e sempre vacilante.

As manchetes dos jornais marginais espalhados pelo quarto provocaram um enternecimento quase nobre. Relembravam os extraordinários. 20 de novembro, Consciência Negra, Zumbi. Em Sierra Maestra, as comemorações do aniversário da morte do “Fuser”, Ernesto Guevara Lynch de la Serna. Aniversário da Revolução Russa Proletária, bolchevismo, Lênin, Trotsky, Alexandra Colantai.

Uma doce vertigem parecia propiciar um suave concerto de palavras. Afinal, o sangue derramado dos mártires parece ornar com destemor até mesmo os mais covardes, os pseudo-revolucionários cuja esperança arrefece à medida que perdem, ao passo que desistem antes mesmo de tentar. Fracos! Fraca!

Mas, as palavras heréticas, como sempre, parecem fluir mais facilmente. As nobres ambições deram lugar a um pessimismo covarde e consequentemente a um horror auto-punitivo. O fato é que tenho feito meu lar em um ninho estranho. Na ânsia de viver empiricamente tenho me silenciado em um abismo soturno e assustador. Na busca pelo clímax da vida e por uma novidade de espiríto enveredei por um atalho e os atalhos são perigosos. Na cura pelo constante enternecimento optei pelo entorpecimento para depois oscilar entre a culpa e a expiação. Senti repulsa por este mundo insano que me obriga à resignação e a polidez, porque o que eu queria mesmo era o grito, a vigilância e não o sono. Em nome do pungentemente real acabei anestesiada e vazia. Me chamei de beat, dionisíaca, procurei desvairadamente as portas da percepção citadas por Blake e tão exploradas por Jim. Estive à beira. Descaradamente, admito que gostei da busca.

Escrever sobre meus mais ternos mártires, agora, seria enveredar por conjecturas baratas com o odor de farsa e transformar o antigo idealismo tão espontâneo em simples retórica. Seria ainda mais dolorido, seria impossível. Porém, uma indagação prática surgiu: Serei capaz de abandonar nobremente? Ou sou daqueles que prosseguem obstinadamente esperando que algo aconteça?


Sei apenas que devo começar por aceitar-me e isso inclui conviver com o bem e mal dentro de mim, sem sentir o horror punitivo e maniqueísta de cada vez que caio. Eu, que chamei minhas causas de perdidas, percebo agora que perdi o espanto e o ardor, mas não a ternura e a indignação, caso contrário eu já teria queimado. Porém, continuo aqui me depurando, me reconciliando comigo mesma e com o mundo, negando o beijo sedutor da renúncia. Às vezes e, inesperadamente, ainda sinto o sangue quente dos mártires me convidando a marchar junto. Com imprecisão trêmula, uma imperícia ingênua e o habitual calafrio no ventre, persisto. O Basta! não ecoou. Ou pelo menos, não convincentemente.

11 comentários:

Anônimo disse...

Querida amiga,

Estéticamente é um belíssimo texto, mas o conteúdo é apenas triste. Os cegos e desavisados se deleitarão com palavras tão belas e repensarão em revolução, mas não eu. Creio que percebo a finalidade sutilmente inserida nas entrelinhas.
A cada texto você se aproxima da arte e se distancia do jornalismo. E honestamente isso me deixa feliz. Eu sempre acreditei que o mundo visto pelos olhos do artista faz essa imensa roda girar, enquanto política será sempre política e ponto final.
Talvez você devesse mudar o nome de seu blog para "Angústias e Jornalismo Casual".
Por fim, um conselho: Let It Be!

Anônimo disse...

Oi loira,

Vc tem o poder de assustar quem gosta de vc hein? É muita intensidade pra quem está ao seu lado e lendo suas palavras dá pra ter uma leve idéia do que é conviver com vc mesma.

Só sei de uma coisa:

É muito talento com as letras, naum dê nenhum basta por enquanto.

Um bj e um amasso...ou melhor um abç...rsrs

Ah...naum se esqueca, "tu és o grande amor da minha vida"...rsrs

Anônimo disse...

Prezada amiga aceitei seu convite e vim dar uma olhada em seu blog. Este negocio de mártir é complicado demais para minha cabeça, eu que nunca pedi nada para ninguém e me deram tudo de que eu não precisava, tal pátria, tal religião, tal ideologia, tal capital ou tal social, me deram até uma escola para me adestrar e eu que sempre pensei que os animais poderiam ser livres, me deram roupas e normas para vestir. Explicaram que existia o bem e o mal e que deveria sempre seguir o bem que os outros diziam que era o bem. Nem marginal original se pode ser nesta sociedade. Em minha casa tem uma placa que diz mais ou menos o seguinte “cuidado com o dono do cão”. Nos anos 80 fui um daqueles ativistas que estava sempre lutando por alguma coisa, mas nestes vinte anos que se passaram,aprendi que as mentiras têm prazo de validade curto e lideres são que nem gafanhotos só conseguem fazer estragos. Mostre-me um sujeito que tem coragem de subir num palanque para gritar por liberdade e direitos humanos ou patriotismo ou sei lá o que, e eu lhe digo que por detrás de tudo isto existe um grande umbigo e dentes afiados. Não se faz guerra para viver em paz nem se troca seis por meia dúzia. Não precisamos destes modelos autoritários de direita e ou de esquerda, isto é apenas uma camisa que pode ser vista de um lado ou de outro. Quero um mundo sem fronteiras e governantes, pois tais modelos são as mais puras mostras de nossa covardia, se somos seres humanos e fazemos parte da “humanidade” deveríamos escrever uma historia diferente. Anarquismo sempre! Beijos JEUX DERNIERS

Anônimo disse...

Que posso dizer?
Vc sempre consegue me atingir, de forma positiva ou negativa, não importa. Já te falei, isso é raro.
Não sei pra onde tu tá caminhando, mas parece que algo está pra acontecer, não é? Tá vendo, tu sempre me lembra Raulzito.

Ahhhh, mina : Kerouac tá fazendo um efeito violento em mim, hein? E isso é um: "OBRIGADDO". Rsrs.

Beijão

Anônimo disse...

Ia esquecendo. Eu sei que tu ta querendo se livrar da loucura, mas não teve jeito esse treichinho do Kerouac é seu:


"Porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações"

Rsrs.

Unknown disse...

Querida Suelen!!!
Há maneiras diversas para se produzir, interpretar ou entender a arte, tanto quanto para a política.
Depende do que se sabe, ou do que se viveu.
Do que se quer, ou do que se espera.
Na minha opinião, o que Você faz com as palavras é arte, enquanto que, o que sua arte faz conosco é política.
A qualidade dessa arte e o efeito dessa política, são sua responsabilidade enquanto produtora, e são nossa responsabilidade enquanto “apropriadores”.
O resultado final, seja do produto da sua arte ou da nossa forma de apropriação e reação a ela, corresponderá sempre a uma síntese das nossas condições de existência e das nossas experiências pessoais.
Considero que a arte seja mais condutora do que indutora de um processo.
Entretanto, creio que na sua capacidade de expressão ela possa servir de instrumento revolucionário.
A arte, em si, não precisa ter um propósito, embora ela sempre comunicará algo.
Se essa comunicação estiver de alguma forma engajada num processo de transformação humana, social, então a arte estará desempenhando decisivamente o seu papel político, emancipando o (a) artista e o seu público.
Continue seguindo seu caminho, Suelen, mas procurar transformar suas angústias em sua redenção.
Alegre-se, liberte-se e partilhe conosco!!!

Pedro Sibahi disse...

Cara companheira de profissão!
Provavelmente sou mais jovem que você, mas para um idealista ( ou talvez socialista, quem sabe progressista ou ainda apenas um libertário) não é difícil se identificar com esse texto...
O que posso dizer... não deixo de acreditar na revolução, mas penso muito em como ela virá! Acho que a revolução se fará no dia-a-dia, não na luta armada e na derrubada de inescrupulosos por outros que assim serão. E seja na arte, no jornalismo social ou em outro caminho, a mudança é possível, mas só quando mudamos nossas próprias atitudes, largamos aquilo que era tão bom e costumeiro.. Quando agimos com consciência das consequências de nossas ações no todo. E claro, quando não apenas reclamamos mas agimos para melhorar o nosso redor.
Bom, também te convido a ler minhas reflexões, às vezes angustiadas, outras nem tanto!

Pedro

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Menina, menina...cada dia mais profunda e talentosa. Não te imagino dando "basta" nenhum. Quando penso em vc e no que fará na vida, vou longe, pq tem algo raro nesta alma angustiada que parece estar sempre a prestes a transbordar e surpreender.

Beijão amiga!!!

Lilian Milena disse...

Su, estou sentindo falta dos seus textos. Escreve, pô! Bjos

Anônimo disse...
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