Ela é a representação emblemática da mescla entre a herança colonial espanhola e a milenária tradição aymará/quéchua, o auto-retratado da cidade de La Paz, a expressão mais significativa da mestiçagem boliviana, por fim, em um eufemismo exagerado, o símbolo do "encontro" entre o Velho e o Novo Mundo.
Durante o período colonial, a mulher criolla (descendente de espanhóis) aderiu à moda ibérica: uso de polleras (saia típica) e mantas elegantemente bordadas, botas, broches, jóias. Nos anos 40 e 50, as mulheres que representavam uma espécie de burguesia de origem aymará, adotaram essa moda ibérica. Atualmente, a chola paceña é um dos personagens permanentes da cena boliviana, especialmente em La Paz. Inevitavelmente, sua roupa recupera o castigo dos séculos passados, porém, no conjunto da obra, sobressai uma forma autenticamente aymará e um inegável toque urbano-mestiço.
Pero para ser una chola paceña hay que tener estilo y dinero. Um jogo com pollera, sombrero (chapéu), manta e sapatos, dos mais simples, custa por volta de 170 doláres. Sem considerar os adornos. E cada mulher deve ter uns três jogos para cada semana. É possível encontrar mantas de vicunhas que custam mais de 300 dólares. Eis o traje andino à la Armani.
Contudo, as cholas mais comuns são mulheres campesinas que migraram para os meios urbanos. É a mulher trabalhadora que aparece em todos os cenários. Pelas manhãs elas se dirigem ao comércio atravessando o trânsito caótico de La Paz, com o auayu (pano colorido, típico, bordado à mão) carregando seus filhos às costas ou o material de trabalho do dia. Em grandes obras de infra-estrutura, lá estão elas, operando maquinaria industrial, carregando tijolo, cavando buraco, servindo comida aos homens. E se por acaso, tiver um bloqueio na estrada e for necessário enfrentamento, e você for uma turista assustada, não se preocupe uma chola paceña estará lá para lhe prestar uma ajuda providencial. Nem será preciso llamar los hombres. A voz política de uma chola é muito nítida, é respeitada entre os seus. São comuns as manifestações políticas tendo como liderança ou maioria as cholas.


É essa chola, em especial, que se destaca. Se não podem comprar, confeccionam. Costuram seus trajes com lã de ovelha, agregam ao estilo desenhos indígenas e vários adornos como faziam os incas em grandes cerimônias. Pode não se vestir com o que há de mais sofisticado, mas tem sua elegância: suas tranças longas e negras, o andar apressado ao ritmo das polleras, a manta onde carrega seus filhos ou material para o trabalho diário, sua disposição para o trabalho, sobretudo, sua expressão aguerrida, vigorosa, valiente.
Porém, em tempos de selvagem competição, o traje da chola paceña, tem outras mensagens implícitas. Marca uma posição econômica, é uma característica de ascensão social. Um maior número de pregas de uma pollera ou o comprimento do sombrero indica a categoria social da mulher. Há pouco tempo era proibido uma cholla paceña freqüentar determinados recintos. Segregação inexplicável, uma vez que 80% da população se considera indígena. A partir dos anos 80 e, especialmente, com a chegada de Evo Moralles na presidência, um índio aymará, houve uma revalorização da cultura dos povos originários.
Rezam as línguas agourentas que a moda cholla já chegou à Itália. A seqüência não é nenhum mistério. O toque Midas do capital, tudo transforma. Bom reviver, importante registrar, antes que cheguem os tempos em que estará gravada na memória coletiva apenas a imagem de modelos anoréxicas nas passarelas de Paris e Milão exibindo polleras e sombreros adaptados e...
...só reste a nostalgia.