Reza a lenda andina que nas entranhas de uma montanha do Deserto do Atacama trinta e três homens ficaram confinados a setecentos metros de profundidade em uma mina de ouro por sessenta e nove dias.
Lá dentro os homens arranham a montanha em busca de ouro. Martelam, içam, carregam e empurram toneladas. Sob a luz bruxuleante movimentam-se em uma mudez solidária, vagam na solidão das sendas, se fundem no silvo das máquinas. Em alguns trechos das galerias caminham encurvados, semiagachados ou rastejam-se penosamente em uma temperatura sete graus acima da superfície. Tudo isso sob uma sensação claustrofóbica. A montanha lhes oferece em troca do ouro um torpor morno e uma fadiga vertiginosa; ressoa cavernosamente seu bafo pegajoso como um monstro em repouso; abriga os homens em sua umidade morna e os molda à sua imagem, ao tom de sua secura ou viscosidade. Lá fora os homens depositam o punhado de ouro nas mãos avarentas e trêmulas do Velho Capital.
Neste dia normal de trabalho uma enorme rocha desaba sob a entrada da mina. Os mineiros sentem um estremecimento, ouvem um estrondo e uma grande nuvem de poeira embaralha seus sentidos. Segundos depois do atordoamento inicial os mineiros começam a percorrer as galerias e procurar uma saída. Esgotadas as possibilidades constatam que estão presos. Um bulício desesperado é calado por uma voz imperativa. Questão de ordem! Um mineiro pede calma. Se reúnem, esperam. As horas passam. Chega a noite. Corre o dia. Chega a outra noite. Amanhece. Percebem que precisam de medidas para mantê-los vivos o máximo possível. É preciso viver.
Os suprimentos só vão durar mais um dia. É preciso racionar. Sobrevivem durante dezessete dias com duas colheres de atum enlatado, um gole de leite e meio biscoito a cada 48 horas. Depois passam três dias sem comer e bebendo somente água. No vigésimo primeiro dia os nervos se alteram, os mineiros se dividem em dois grupos isolados em galerias diferentes. No vigésimo terceiro dia, esquecidos da cultura e desobrigados moralmente pela fome um dos grupos sequestra durante a noite um dos mineiros do outro grupo. Com marteladas o mineiro é assassinado e sua carne rasgada com picaretadas. Os mineiros se banham no sangue e se fartam em sua carne. Os mineiros do outro grupo invadem a galeria onde o ritual antropofágico se passa. Se revoltam, avançam sobre os mineiros canibais. Matança alucinada. Os feridos que sobrevivem agonizam va-ga-ro-sa-men-te. Foi um contorcer de corpos, um arquejar bestial, um esticar de beiços, um ranger de dentes, um espumejar de sangue e saliva, um estremecimento gélido, uns queixumes, umas ladainhas, um arregalar de olhos, um agarrar não-sei-quê como quem tenta agarrar a vida, por fim, um revirar de olhos medonho, um arranque pra cima, o afago de uma lágrima lenta e a morte. Horas de Horror sepultadas como segredo da montanha.
4 comentários:
Adorei. Não preciso dizer mais.
oi!
ah, não faz tanto tempo assim, mas confesso que pensei que fazia mais.
gostei de ler sobre a bolívia porque estive por lá em fevereiro desse ano. mesmo que seja um lugar onde é preciso, digamos, muito "espírito esportivo", depois, quando lembramos, é sempre bom
não abandone o blog! nem é miserável, nada, mas se quiser enfeitá-lo, agora o blogger tá com milhões de recursos pra tu escolher cada detalhezinho do layout :D
abraço!
"um dos grupos sequestra durante a noite um dos mineiros do outro grupo."
haahaha muito bom!
algo me diz que na verdade o que aconteceu é ficção e que a tua história é a mais pura realidade.
Capitolina,
Como gosto de te ler. É agradável, belo, feio, inquietante e mexe com a minha imaginação, com a minha razão e meus sentidos de um jeito incrível. Aquilo tudo que meus poemas não fazem por você...rs
Não sei mais como dizer...escreve pô.
Minha escritora bruxa predileta.
Aquele beijo...
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