01/11/2010

Los 33 e a Fênix

Não, a lenda não existe. Os mineiros foram resgatados não por uma dessas divinas providências, mas pela genialidade humana. No décimo sétimo dia os mineiros foram descobertos e cinquenta e dois dias depois resgatados pela criação humana chamada cápsula Fénix 2 que realizou setenta e tantas viagens de subidas e descidas ao subterrâneo para resgatar os trinta e três mineiros.

As idiossincrassias da história real superam em beleza o horror da fábula. Pablo Rojas, por exemplo, um dos mineiros disse que se casaria com sua namorada com quem está comprometido há VINTE E CINCO ANOS. Era SÓ isso o que ele precisava pra ter certeza que ela é a pessoa certa: ser confinado por 69 dias. Pra refletir melhor, colocar as ideias no lugar. Saca? Outro mineiro, Esteban Rojas Carrizo, é um grandiosíssimo hijo de puta. Casado há 28 anos, tem uma amante que teve a ousadia sem-vergonha de esperá-lo no acampamento construído aos pés da montanha para recepcionar os mineiros. Esposa e amante duelam e, por fim, a esposa abandona o acampamento e Rojas é recebido com beijos tórridos pela amante. O outro, Juan llanes Palma, quando questionado sobre como foi viajar na Fénix, diz docemente, “Excelente, foi como um cruzeiro”. O outro, Mário Sepúlveda, sobe a cápsula gritando VIVA CHILE......mierda! E teve que ser apressado (depois de sessenta e nove dias!) por um dos integrantes da equipe de resgate para sair da mina. E resmunga um tranquilo Já vou, já vou. Tsc, tsc. E se a caverna lá de fora tenta ofuscar a lucidez, o mineiro Franklin Lobos é imperdoável Não somos heróis. Limitávamo-nos a lutar pelas nossas vidas, porque temos famílias. Somos, isso sim, vítimas dos empresários que não investem na segurança. E houve governo representativo nas minas Tudo era submetido a votação, Éramos 33, portanto 16 mais um era uma maioria diz Luiz Ursúa. E houve pacto de sangue na mina, confessou dia desses Mário Segovia O que acontece na mina, fica na mina. E se o show quer transformar os mineiros em estrelas, Sepúlveda responde galhardamente Não quero que me tratem como artista, nem como animador, mas como Mário Sepúlveda, como trabalhador, como mineiro. E que sensação morna e ingênua deu no peito da gente esse recadinho deles: Estamos bien, los 33 en el refugio.

Mirem o espetáculo de humanidade (em absolutamente todos os seus sentidos) quando as riquezas produzidas pelo trabalho dos indivíduos se tornam assim, de repente...genéricas. Sem Fênix, o que seria destes homens? Nenhum realismo fantástico pode imaginar. A Fênix 2, essa objetivação que coagula em si as conquistas da humanidade, em termos do que foi construído, que convergiu em si a criatividade, a multiplicidade de gostos e aptidões, a realização da liberdade das individuações, da sociabilidade, da universalidade, da consciência, ou seja, do desenvolvimento multilateral de todas as capacidades e possibilidades humanas desenvolvidas no intercâmbio universal, a evolução de todos os poderes humanos em si...por meio segundo histórico esta criação pareceu genérica. Todo um aparente caos de categorias e objetivações...tu-do ordenado nesta criação para a providencial salvação dos homens. Pertenceu aos mineiros, e assim pertenceu a humanidade inteira neste breve segundo.

Eu? Acho incrível.

Mas riqueza genérica tem preço. E o custo do resgate já foi computado: vinte e dois milhões. E renderá mais e mais. E mais mineiros morreram semana atrás no Equador. Mas o show já acabou. O ouro e a prata da América Latina foram saqueados há séculos e está ornando a Europa. Mas ainda hoje os mineiros estão raspando o pouco ouro e prata das montanhas andinas para sustentar uma vida pouca. E onze mineiros foram mortos dia dezessete em uma mina na China. E não teve Fênix que os salvasse.

3 comentários:

Melissa disse...

lindo. tu usa um vocabulário bem rico e particular, legal. me inspirarei.

Valéria Tenorio disse...

E ai...se a Fênix não existe e se não é possivel salvar os mineiros, então não é possivel que a imprensa cubra o evento.
E ai...se a Fenix não existe e se não é possivel salvar os mineiros, mas, por outro lado é possível contar com a imprensa, pode-se ainda transformá-los em anti-herois para que a morte deles não cause nenhum mal estar na sociedade.
No final da história, perde-se o funcionário, perde-se o ouro, mas não perde-se a mina, essa continua a ser privada!
Adorei o texto, Su! Muito Foda!

Leandro Fortes disse...

Suelen, não desista do jornalismo. Você escreve muito bem! Parabéns pelo ótimo texto. bjs