Na noite derradeira, Prascóvio das Dores despencou daquele redemoinho de ideias tresloucadas e dormiu. Acordou. Garrou na enxada. Moeu raiz com as pancadas no chão. Pancadões fortes. Um lastro de prascóvio surrou o chão. De repente, como que segurado pela enxada, estancou:
Prascóvio
Prascóvio
Prascóvio
Não houve pensamento desentranhado que deliberasse. Não houve epifania que declarasse. Não houve fala que sussurrasse. Um arrepio, um confuso de sons tomando de conta, um medo todo junto a lhe desbaratar o sangue. Possuído de vertigem, tomba a enxada e olha o sol inclemente sem saber o que olha. E então, para o fim, abandonam-no de todo as forças, já não consegue manter-se de pé, foi-se curvando, nem deu por isso, e agora está de cócoras. É um pobre diabo espremendo a última fraqueza. Tem os olhos escuros e resplandecentes como minas. Repete:
Prascóvio? Prascóvio? Prascóvio?
Sussura sem som:
Homem?
Num rompante só, ideias dessas lhe percorrendo todo: se viu inda menino brincando com a enxada do pai. Se viu moço, fugindo da dita. Se viu feito gente grande não vendo graça na maldita. E agora precisou segurar firme nela pra não despencar sobre os estrumes todos. Precisou garrar firme no cabo pra se possuir de novo.
Prascóvio agora matutava.
Mas que doideira foi aquela?
Tinha tomado café? Sim. Tomou café preto e um bom punhado de farinha.
Era o cansaço? E cansaço é lá motivo pra doideiras dessas?
Ficou especulando ideia.
Qual foi o momento derradeiro?
Práscovio não entendia.
Alembrou-se que dia antes tinha ficado remoendo rancores e outras coisas suas que há anos pelejava por deslembrar. A filosofia de Prascóvio não é de tipo que põe armado. Tem seu vagar de pensar, trejeito seu de pôr de balanço a vida:
Povo da cidade lhe chamando de bicho-homem, quando não de lobisomem
Dono da fazenda querendo vender e Prascóvio que se mudasse feito passarinho que constrói casa em árvore qualquer
O dinheiro mirrado, os nacos de carne, o colchão feito pedra ensebada
A mulher enlouquecida, uma filha morta, outra puta e nada, sempre o nada
O enxadão que lhe manda, um trabalho que é uma desgraceira sem fim
Tudo era pouco ou demais.
E com mil demônios desses a lhe corroer, Prascóvio vai moer com o enxadão as raízes do mato. E aí, foi lembrando da derradeira doidera. Que o enxadão descia depressa, furioso, nem deu por ele, parecia vivo. E a terra? A terra? Parecia caçoar dele. E era dura, a maldita.. Lembrou também que na vertigem o marrom e o vermelho embaralharam-se todos, turvos. O vermelho marcava a enxada. E a enxada subia, descia. Olhava pra terra feito bicho endoideicido. Feito fosse uma matança. Os dentes cerrados. O suor, sangue. Prascóvio tinha raiva, ódio. Vivia só pra não dar gosto a ninguém de lhe velar com cara insossa.
E antes da doideira, Prascóvio alembrou-se. Sim, lembrou-se do que se esparramava no rés-do-chão de seu pensamento dia antes.
Veja lá: não é que ele tivesse dito. São coisas sabidas de quem narra:
Num acaba é nunca... a plantação inda se faz como fez Lorenzino das Dores, o avô, nem as pragas se varearam de ferrão, e se um caco invisível corta um dedo, o sangue tem a mesma cor. Sempre a trabalhar para a mesma horda, como houvesse nascido para isso. E só para isso. Um viver velho de palavras repetidas e repetidos gestos. O arco que a enxada desenha está ajustado ao comprimento do braço e a tombada da enxada na raiz produz o mesmo som, sempre o mesmo som, como é que não se cansam o ouvido destes homens e destas mulheres...é ceifar, é debulhar à maquina, é enfardar a palha, o feno, é espalhar adubo, é lavrar, é cortar, é podar, é abrir vala, é trabalhar na horta, é cavar a terra para os legumes, é trabalhar em poços, é trabalhar em brocas, em barracos, é chacotar a lenha, é gadanhar, é tapar palheiro, é montear, é tirar cortiça, é tosquiar o gado, é enfornar, é ensacar, é arrumar cerca, é pintar, é bezerro machucado, é gado fugido, é o diabo...
E depois foi aquilo, o que ele chamou de doideira...quando o enxadão travou feito alguém tivesse segurado... o sol, o vermelho, a terra, e ouviu. Ou sentiu, ou disse, jamais saberemos. Não chorava, mas tinha lágrimas nos olhos, os olhos boiavam em lágrimas. Até um bicho teria piedade. O coração é um martelo que golpeia e atordoa, que vai ressoar dentro da cabeça:
Prascóvio
Prascóvio
Prascóvio
O nome repetido, uma, duas, três, quantas vezes não se puder contar. Prascóvio..hã...que diacho de nome é esse? E repetido parecia disparatado. Nome de comida ruim, isso sim. De bicho, bichinho pequeno, inseto de cão.
Prascóvio
Prascóvio
Prascóvio
Retumbando do seu íntimo, feito coisa-feita.
Prascóvio? Prascóvio? Prascóvio?
Sussura sem som:
Homem?
As letrinhas foram sumindo e rodeando ele todo, caçou as pernas, olhou espantado pras mãos.
Prascóvio
Prascóvio
Prascóvio
E foi assim que Prascóvio das Dores perdeu-se de si e tempos depois - sabe-se lá quantos - em cena que deus não vê e o diabo só obrigado - foi encontrado nu no curral. Estatelado. Em sangria. Em meio aos porcos espantados.
2 comentários:
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Que tapa...
uau, guria!
Parabéns.
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