29/10/2007

“Desaprendendo” o jornalismo entre Caros Amigos

1º Anti-Curso de jornalismo da Revista Caros Amigos


Na faculdade de jornalismo me apresentaram o célebre Manual de Redação. Nunca entendi direito esse troço. Logo no primeiro semestre os professores disseram que o tal livrinho era indispensável. Lá vai eu na biblioteca, inspecionar o dito cujo. Sozinha, no corredor da biblioteca não deu para evitar uma risadinha debochada. Tantos livros que me interessam comprar que, gastar dinheiro naquilo só poderia ser uma piada (de mau gosto). Na próxima aula os mestres contaram histórias de estagiários que passaram por maus bocados com seus editores por não saberem as regras do livro sagrado.

No Anti-Curso da Caros me ensinaram que o Manual de Redação tem por objetivo suprimir o autor. “Você vai estar tão condicionado às normas do Manual e o teu texto vai estar tão submetido às regras que no final das contas não interessa quem escreveu o texto”, afirma o Arbex.

Em outros cursos, cansei de ouvir aquela ladainha de “ingênuos” jornalistas alegando que é perfeitamente possível se trabalhar em um veículo empresarial, a mídia gorda e, ainda assim manter a sua autonomia. Enquanto escrevo este texto a Record exibe orgulhosa sua matéria do dia sobre o poderoso chefão, Edir Macedo. Paulo Henrique Amorim, sujeito distinto do jornalismo brasileiro, ao invés de fazer uma reportagem só faltou pedir a benção do santo homem. Nenhuma menção à famosa reportagem da Globo mostrando Edir Macedo tentando cooptar pastores da Igreja ensinando a “angariar” fundos dos fiéis: “Se você quiser ajudar, Deus vai te ajudar, se não quiser outro vai. Ou dá, ou desce”, ensina o abençoado. (pesquise no Youtube). A matéria mais parecia campanha de publicação do livro de Edir Macedo que, “coincidentemente” seria lançado no dia seguinte.

O que é mais grave, segundo Arbex, é que se essa fosse uma política da empresa seria até compreensível. “Afinal, sempre foi assim, se você quer mostrar a sua opinião funde o seu jornal”, diz ele fazendo alusão à frase de Assis Chateaubriand. Mas, segundo Arbex, “o mais grave é ver jornalistas fazendo papel de cães de guarda dos donos do jornal”. Que o diga Paulo Henrique Amorim.

Para os (ainda) iludidos, o Arbex nos dá outro exemplo. Conta que perguntou a um jornalista Global o seguinte: “Quando você se refere ao Osama Bin Laden, você diz: ‘o fundamentalista, terrorista, islâmico Bin Laden’. Por que quando você se refere ao Bush não diz: ‘o fundamentalista, protestante, terrorista George Bush?’. Isso tudo ele é. Ambos concordam. O jornalista respondeu: “Por que ele é um presidente eleito”. O Arbex retruca: “Pior ainda. No golpe da Venezuela vocês fizeram um brinde à deposição do Chàvez. Por que um presidente pode ser deposto e o outro não?”. Velha cara de interrogação do outro lado.

O fato é: a grande imprensa apresenta os fatos como se fossem retratos do mundo, “o que não está de acordo de acordo com eles é ideologia, é anti-jornalismo, é militância”, continua Arbex. Foram 6 milhões de votos a favor da reestatização da Vale do Rio Doce. Nenhuma linha sobre o assunto nos jornais da grande mídia.


Verena Class, jornalista da Agência Carta Maior e militante, é o reflexo do jornalismo que tanto me apaixona. Histórias de reportagens ao lado militantes em ocupações pelo MST, Via Campesina, índios, enfim, tudo o que representa a luta pelos direitos dos povos.

Mylton Severiano, o Miltaynho, me fez respirar aliviada ao dizer que o diploma de jornalismo é totalmente dispensável. “O diploma elitizou a profissão”, afirma ele. Na tal faculdade de jornalismo nunca me senti uma aspirante a jornalista, naquele espaço 99% classe média, me sentia uma “enferma”. O Miltaynho explica esse termo: “Tem a ver com a constatação: se o jornalismo é isso que a mídia gorda faz, então não sou jornalista, mas enfermo; ou, ao contrário, jornalista sou eu, e eles, enfermos.”

Em uma determinada época de suas carreiras, a maioria desses jornalistas serviram com desgosto a mesa da grande mídia. Por uma questão moral acabaram buscando outros rumos mais coerentes com os seus princípios. É o caso do Renato Pompeu. Mas, ao contrário do que possam pensar certos desconfiados, a maioria dos jornalistas presentes no Anti-Curso não tentaram desestimular os jovens jornalistas a ingressar em um trabalho na mídia empresarial. É uma oportunidade para experiência, formação profissional e pessoal. Não há discursos saudosistas de implicância com a nova geração. O próprio Renato Pompeu ainda hoje escreve para o Diário do Comércio, muito a contragosto, segundo ele para pagar as contas, mas ele diz que existem limites, assim como uma prostituta: “Algumas coisas eu até faço, mas beijo na boca não”, ele brinca.

Georges Bourdokan contou histórias sobre viagens em companhia de beduínos e escorpiões no deserto e sobre as dificuldades em se fazer jornalismo no Oriente Médio, especialmente em Israel. Ressaltou como o jornalismo feito sobre essa região aqui no Brasil é devassado. “É um jornalismo que chama os sem-terra de invasores e a invasão do Iraque pelas tropas anglo-estadunidenses de incursão”, protesta o jornalista.

O Anti-Curso também teve como convidados os jornalistas Cláudio Tognolli e Marcos Zibordi, mas infelizmente não pude comparecer neste dia. Com o bom humor e a inteligência do chargista Claudius este Anti-Curso se encerra.

O jornalismo é um humanismo.

Ali, entre Caros Amigos, relembrei isto.

Não me senti mais “enferma”.


12/10/2007

O nome do filme é Anjos do Sol

Filme brasileiro, do diretor Rudi Lagemann, conta a saga da menina Maria, de doze anos, que vive no nordeste brasileiro e é vendida a um traficante de prostitutas. Depois de ser comprada em um leilão de meninas virgens, Maria é enviada para um prostíbulo localizado numa pequena cidade, vizinha a um garimpo, na floresta amazônica. Na primeira noite, depois de ter sido violentada por vários homens ela foge com a valente Inês. Capturadas, o castigo para Maria é um mês de cativeiro, acorrentada à cama enquanto uma infinidade de homens pratica sexo com ela. Para Inês o castigo é ser arrastada até a morte pela traseira de uma caminhonete. Após meses sofrendo abusos, Maria consegue fugir e atravessa o Brasil na carona de caminhões. Ao chegar ao seu novo destino, o Rio de Janeiro, ela não é mais Maria. É Isabela.


"Um anjo torto, desses que vivem na sombra"

É em carne viva que os dedos dão vazão à angústia em palavras inúteis. Afinal, o estremecimento pelo mundo precisa ser expurgado. Caso contrário, esse veneno mortal do mundo doente se espalhará como uma chaga e vai corroer tudo. Todo o triste resto.

Suados, sujos, fechando o zíper e escancarando um sorriso perverso. Um e depois o outro, um e depois o outro, um e depois o outro. Com a sua voz infantil e embargada pelo choro ela diz: “Eu tô machucada, eu to doída, eu tô...suja...mãe, por que eu tenho que ir?”

São apenas meninas que choram e dão risadas com a plenitude da alma, daquelas que ainda não conhecem as máscaras, durante horas e horas mórbidas seu inocente corpo virginal é violentado

Neste trópico abençoado por Deus os demônios castigam Anjos do Sol. Mundo insano e sujo que evacua tantos malditos. É este o mundo que criaste, meu Deus? Para isto seus sete dias de trabalho?

Um Anjo foi corrompido, fartaram-se do seu corpo, cuspiram em sua alma, cortaram suas asas antes que aprendesse a voar neste céu desamparador. O que resta agora é um fantansma, convenientemente distante, espectro vagando neste ar pútrido e perverso. Sempre machucada, doída e suja.


Agora, só resta Isabela.


24/09/2007



Há algo de podre no Reino da Fundação Santo André

Uma Reitoria que nos últimos três anos aumenta em mais de 30% o valor das mensalidades.

Um Reitor que se beneficia de viagens ao exterior sem necessidade, motorista particular, dois seguranças, um cozinheiro, carro e combustível às custas do caixa da Fundação, cujos dados contábeis são abertos somente à própria Reitoria.

Uma Reitoria que fecha salas e turmas dos cursos de Geografia, História, Letras, Ciências Sociais, Matemática e Pedagogia, que debilitou os laboratórios de exatas a ponto de querer abrigar 100 alunos em uma sala que cabem 40.

Uma Reitoria que gasta R$4 milhões em 48 cargos de confiança totalmente dispensáveis por não possuírem qualquer justificativa técnica. Que possui em seu quadro cargos em comissão, indicados por políticos, consumindo R$2,5 milhões, que resultou em um déficit de aproximadamente R$350 mil no caixa da universidade.

Esse é a administração Odair Bermelho na Fundação Santo André, instituição que têm por tradição a qualidade de ensino há décadas na região do Grande ABC.

Ocupação e greve
O estopim para a ocupação da reitoria da FSA (13/09) e a greve em seguida (15/09) foram os fatores acima mencionados e, acima de tudo, um memorando da universidade comunicando a extinção de alguns cursos e o reajuste das mensalidades que em alguns cursos significaria um aumento de até 126%.

O caráter questionável desta administração ficou ainda mais evidente em nota divulgada após a ocupação, onde a reitoria afirmou não serem verdadeiras as informações sobre o aumento das mensalidades em até 126%. Uma maneira cínica e grotesca de ludibriar os estudantes e professores. A reitoria comunicou sim essa proposta de reajuste, inclusive através de um memorando assinado pelo pró-reitor de graduação. Documento este que está em posse dos alunos envolvidos nas manifestações.

Repressão
A ocupação da reitoria foi realizada de forma organizada e pacífica. “Foi uma demonstração de organização que ensinou os professores”, disse um professor presente na reunião com o prefeito de Santo André.
(vide gravação Rádio Movimento www.radiomovimento.net/site/especialFsa.htm). “Esses jovens estão sentindo as mesmas angústias que nós. Essa reitoria está tentando nos transformar em uma universidade que nós não somos. A FSA está perdendo a identidade”, alerta o professor.

Mesmo com uma atitude organizada e pacífica, a PM invadiu a reitoria, sem mandado judicial e com policiais sem identificação (vide as fotos no blog da ocupação - http://ocupacaofsa.blogspot.com). Os policiais usaram cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, tiros de balas de borracha e agora alegam que tentaram negociações com os estudantes e como eles se recusaram “tiveram” que utilizar outros meios. Como se a invasão de uma manifestação pacífica, sem mandado judicial (leia-se“baixar o cassetete”), se justificasse simplesmente porque os estudantes se recusaram a se retirar em pleno ato de manifestação.

“Vocês vão apanhar que nem ladrões”, essas foram as palavras utilizados por policiais militares durante retirada violenta dos estudantes que haviam ocupada a reitoria. “Invadiram, agora agüentem”, diz um representante da reitoria, o advogado Domingos, em tom de ameaça aos que participaram da ocupação.

Estudantes e professores se reuniram com o prefeito de Santo André, João Avamileno, na semana passada (18/09) apresentado denúncias de irregularidades e exigindo providências. O prefeito diz estar ao lado da Universidade e não dos alunos ou da reitoria. “Violência gera violência. E a invasão da reitoria foi uma violência”. Pode-se dizer, sem medo de errar, que a violência neste caso é apenas uma questão de ponto de vista, Sr.Avamileno, pois a principal violência está sendo cometida contra a Fundação Santo André, através da precarização e destruição gradual dos recursos da universidade e não são os estudantes que estão fazendo isso. É nesse molde que esse movimento chamado OCUPAÇÃO FSA se insere.
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27/09 (quinta): ATO PÚBLICO NA FUNDAÇÃO SANTO ANDRÉ -
Contando com a presença, além de todos os alunos em greve, de estudantes, entidades, etc, que apóiem a luta na F$A!

02/09/2007

Bendito seja o MST

Sábado, 01 de setembro, Universidade Metodista. Dia de conhecer assentamento do MST. E segue a turma universitária rumo ao laboratório da vida real. No fundo do ônibus, estudantes de filosofia (ou filósofos estudantes), empolgados com o conhecimento, discutem de Nietzsche a Marx, de Foucault a Raul Seixas.

Entre conversas, risos e reflexões caladas, o ônibus segue sua viagem rumo à cidade de Guararema, interior de SP. Parada rápida na Escola Nacional Florestan Fernandes, obra inaugurada em 2006. A Escola carrega o nome do Mestre e no interior só se sente o espírito dele e de outros Mestres. “Camilo Vive”, diz o pôster vermelho pregado em uma das repúblicas, em homenagem ao primeiro padre guerrilheiro na América Latina.
Na sala de aula, janela com vista para a terra conquistada, um professor carismático arranca risadas de seus alunos entre um retrato de Marx e outro de Florestan Fernandes.

Mas, nem só do passado vive o homem. Por isso, a Escola também é decorada com fotos dos próprios sem-terra: camponesa com chapéu de palha e enxada na mão, cortador de cana em sua labuta no canavial, criança brincando com a terra, criança na escola.

Na parte externa da Escola, república para os estudantes e uma ponte de uma beleza agreste que só poderia mesmo dividir a área pertencente ao MST e o único pedaço de terra ocupado. Na terra: mudas plantadas. Por que, de terra ocupada pelo MST, só se produz isso: comida.

A viagem continua com os corações mais leves e realizados, ansiosos pela chegada ao assentamento. Impressionados. Emocionados. É assim que os olhos de quem é apaixonado por esse movimento ficam ao ver o que, de fato, significa esse movimento. Dá certo! É isso o que ficou implícito em cada canto desta Escola.

Ônibus de novo "comendo poeira" com destino ao assentamento, paisagem muito verde e cinza ao mesmo tempo. Casebres com homem da terra amansando cavalo, vaquejando gado e cuidando da plantação. No meio do desmatamento e do gado magro um outdoor que diz: “CONDOMÍNIO FECHADO, a vida que você sempre quis”. Ao redor de cada placa sempre terra pobre e cinza, mato queimado e cerca. Terra pobre para produção de alimento, rica para o cimento das mansões do homem do asfalto.

Chegamos ao assentamento e quem nos recebe é D.Maria, chapéu de palha na cabeça, andar manso, fala simpática, abraço aconchegante. Subimos a estradinha de terra rumo ao local onde a bandeira do MST estava fincada. Vermelha, flamejante, parecia gritar vitória ao balançar dos ventos.

No caminho, riacho com água limpa e refrescante, mata fechada, criança andando à cavalo na rua chamada “Revolução”, cada casinha com seu homem da terra e sua terra demarcada, ansiosa para ser trabalhada, cheiro do eucalipto plantado para gringo, que será substituido por comida. D.Maria aponta lá longe, os traços dos vales que determinam os limites das terras ocupadas pelo MST. É terra demais. Dá gosto de ver. A visão das várzeas e das plantações de arroz revigora os olhares.

Subindo morro, D.Maria vai respondendo às perguntas dos estudantes e suas lupas. Para cada pergunta, digamos surreal (pra dizer, no mínimo), D.Maria respondia com palavras sábias. “E as crianças pequenas de 1 ano, 2 anos...”. pergunta a figura. “Só brinca, vai fazer o que, né?”, responde D.Maria, com uma calma inexplicável. “Depois vai estudar, aqui no MST criança tem que estudar e não trabalhar”, complementa ela. Pergunto à D.Maria de onde ela é e como se envolveu com o MST.
“Sou baiana. Ah, cansei sabe? De ser explorada por patrão. Aí conheci a luta e não parei mais não. E continuo porque gosto, né? Creio nisso.” responde ela. Fito o rosto simpático dela e pergunto novamente “Gosta mesmo?” (só para ouvir de novo). “Gosto, ah se gosto”, responde ela sorrindo largamente.

Lá de cima do murro, ela grita para o vizinho:
“SIMBORA OCUPÁ?”
Os estudantes caem na risada e esperam a resposta:
“VÁ LÁ, QUE EU JÁ TÔ INDO? FEZ CAFÉÉÉ, D.MARIA?
Berra o vizinho do outro lado.
Mais risadas.

Concluindo a viagem, descansamos na casa do seu Domingos. Sentamos no sofá, tivemos breve aula de agronomia, tomamos a cachaça oferecida. “É sério?” perguntamos quando ele a oferece: “Tá aí, do lado do fogão. É da boa, pode tomar”, diz ele. Risadas satisfeitas. Esse é Seu Domingos. Recebendo 40 intrusos e com um sorriso largo estampado.

Agora, só restava descer a ladeira, com a alma revigorada e a paixão ainda mais exacerbada. E nunca, essa frase pareceu mais apropriada:

“Bendito seja o MST, se ele não existisse teríamos que inventá-lo”.


29/08/2007

O texto era para ser mais jornalístico, com lead, mais curto, etc e tal, mas...não deu. Não gostei, ficou com a cara da Folha de São Paulo. Deixa pra lá, não sou jornalista mesmo. (ainda). Além do que, esse não foi um simples evento, representou o reascenso das utopias destas veias nervosas. Só dava para escrever com verdade.

Movimentos sociais e estudantes na luta contra o latifúndio do saber

Em minhas buscas por inspirações encontrei no meio do caminho um... caminho. Um discurso familiar, inconformado, disposto ao protesto e, incondicionalmente, a favor dos esquecidos.

Palestra na Fundação Santo André. O tema : “Que universidade queremos?! O ensino superior em debate”. Era tudo o que este coração angustiado necessitava: vozes revolucionárias, mais do que isso, mentes brilhantes propondo (ou exigindo) um novo Brasil.

Encerrou na última sexta-feira a “Jornada Nacional em Defesa da Educação”. Trata-se de uma série de manifestações e debates, em universidades e espaços acadêmicos, reivindicando uma educação pública de qualidade. Os professores, Zago e Buzzeto representaram a campanha na Fundação Santo André através de uma palestra-debate. Na mesa, José Vitório Zago, professor da UNICAMP e membro do ANDES – SN (Associação Nacional dos Docentes no Ensino Superior – Sindicato Nacional) e Marcelo Buzzeto, professor da Fundação Santo André e membro da Coordenação Estadual do MST/SP.

O professor Zago, de adesivo do “Conlutas” colado no lado esquerdo do peito, inicia a palestra. Fala com precisão e a aquela calma de quem sabe o que está dizendo. Quando ele começa a falar sobre a universidade que o Conlutas quer para o Brasil, o tom de voz aumenta levemente e a eloqüência cativa os estudantes sedentos por vozes sábias e experientes. “Queremos para o Brasil uma universidade laica, pública, gratuita, de qualidade, democrática, autônoma didática e administrativamente e, principalmente, acessível à maioria da população”, enfatiza ele.

Relatou verdades inconvenientes: “substituição de professores”, principalmente mestres e doutores para redução de custos nas universidades; “apenas 11% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos têm vaga no ensino superior"; em determinadas regiões o ensino privado abrange 90%; e, por fim, na defesa do nosso ensino um governo que de esquerda nada têm (e nunca teve), “uma vez que destina 2,5% do orçamento da União em educação e cerca 40% para o serviço da dívida” (rolagem da dívida interna, amortização e pagamentos).

Discursa na seqüência, Marcelo Buzzeto que, recentemente enfrentou a famosa masmorra, destinada não apenas aos homens maus, mas também aos rebeldes (uma prisão ilegal durante manifestação do MST, leia http://www.apropucsp.org.br/jornal/607_j02.htm). Esta mente fértil que aqui vos escreve, sempre fantasiando seus heróis, comicamente o imaginava um homem cabeludo, barba por fazer, ares de revolta, aparência nervosa e angustiada, talvez uma camiseta do Guevara. Coisas de uma mente altamente idealista (até demais). Mas, o que encontra é um homem calmo, eloqüente, simpático e, acima de tudo com um discurso sóbrio, equilibrado, sem a pressa insana típica do espiríto dos jovens.

Revela que, na avaliação do MST, a educação é parte de um processo de elevação do nível de consciência política da classe trabalhadora. Citou a ocupação do Largo da Faculdade de Direito de São Francisco ocorrida na madrugada anterior. A tropa de choque despejou os manifestantes presentes, em um procedimento totalmente irregular: sem liminar de despejo e às 2h30m, sendo que é permitido efetuar despejos somente a partir das 06hs. “Do ponto de vista, da própria lei burguesa o procedimento foi totalmente irregular”, protesta o professor. Mais uma arma da repressão preventiva realizada pela aliança entre o Governo do Estado de SP, a Prefeitura e o Poder Judiciário. O bom e velho noticiário televisivo, obviamente tratou o evento como crime.

O professor Buzzeto, conclui dizendo que a jornada deve desencadear um processo de mobilização, deve servir para refletir “sobre o que vamos conseguir acumular daqui pra frente, que signifique novas lutas, que não seja uma jornada de uma semana apenas. É uma conquista, uma vitória, mas é insuficiente”, ressalta o professor. A jornada deve adquirir um caráter de luta de massas, que não seja restrita ao universo acadêmico, aos movimentos sociais, “deve atingir o povo, os lares da periferia, que estão fora da universidade, fora dessa discussão que está em pauta”, conclui o professor.

Para os corajosos que chegaram ao fim do texto, só digo que este "fabulário feral do delírio cotidiano", falará menos das angústias e mais das lutas, menos do mal e mais da luta do bem contra o mal, pretenderá, de fato, fazer parte da "contra-mola" que resiste aos dentes afiados da engrenagem.

Agora, a angústia é outra!


11/08/2007

O Pai


Você sempre em agonia pelos males do mundo, sem perceber as cicatrizes da vida marcadas no corpo e na alma de alguém tão próximo de você. Sangue do seu sangue, mas cuja história você ignora. Resquício de uma rebeldia adolescente que se transformou em orgulho. Será? Sabe-se lá qual seria a análise freudiana pertinente ao caso. O fato é que você perdeu tanto que agora todos os motivos parecem estupidamente banais, claramente mesquinhos, definitivamente medíocres.

Em um momento inusitado, ele conta a sua história e você apenas ouve, enquanto sofre calada a dor de um arrependimento estéril. Relata fatos únicos de sua existência. Um filho da roça que andava descalço pelo sertão baiano enquanto seu pai, um rico fazendeiro, cobria de plantações e gado toda a região. “Sabe o que é andar descalço, aos farrapos, em uma terra cujo dono é seu pai?” A humilhação, a vergonha de ser rejeitado sem saber por quê.

A criança se transformou em um adulto que da vida só conhecia o cabo da enxada. Dos amigos, todos miseráveis também, lembra-se das cadeiras nas calçadas em frente aos botecos e das apostas para ver quem bebia mais. Treze anos e um rosto desbotado, olhar sem brilho, calos de um velho, a alma mutilada. A aposta era para ver quem se entorpeceria até esquecer do mundo, de si mesmo e de quem nunca poderia ser.

Quando a seca expulsou o pai das terras, ele veio para o asfalto derramar seu suor. Passou fome, sentiu-se órfão, aqui ele era apenas mais um filho da seca, sem cheiro e nem sabor. Aprendeu uma profissão e se juntou ao “exército industrial de reserva” do capitalismo selvagem, da humanidade fria e animalesca. Depois amou, construiu família e viu os filhos crescerem, se afastarem a ponto de o olharem como um estranho. Das frustrações, a maior delas, é não poder pagar a faculdade de jornalismo da filha rebelde. Ele sempre quis que ela “fosse alguém”. Que fosse o que quisesse ser.

Você se rasgando em angústias pelas dores do mundo sem perceber que tudo o que você ama, defende e protesta estava representado no pai. “O social” (bah!) que você tanto buscou está aí, esteve aí a sua vida toda e você ignorou. A história de vida do pai é parte do grande retrato da tragédia humana. Inicia-se quando é abandonado pelos seus e continua enquanto é abandonado pela pátria mãe gentil, pela humanidade triste e covarde.

Finalmente você entende o pai. E ele parece te entender. A semelhança entre os angustiados é nítida, mas até hoje nenhum dos dois se deu conta. A diferença é que enquanto você grita uma voz rouca, o pai chora calado e sozinho.


22/07/2007

Senhores de engenho, donos dos corpos, senhores das almas


“Quantas vezes tenho vontade de rasgar o peito e estourar o crânio vendo que somos tão pouca coisa uns para os outros”. (Goethe)


O Velho não costuma ouvir rádio no computador. Exceto quando se trata do bom e velho rock and roll. Uma notícia em um site conhecido chamou sua atenção. A matéria também estava escrita, mas por algum motivo ele preferiu ouvi-la. Falava sobre trabalho escravo. A voz fria do locutor denunciava calmamente os números de um relatório sobre “o horror”. À medida que as estatísticas eram calmamente relatadas, ele sentia que o quarto ficava pequeno e gelado. As paredes pareciam se comprimir a ponto de sufocá-lo. Sentia o peito apertado, o coração oprimido. Ele olha fixamente para o um ponto qualquer, sente as lágrimas queimarem o rosto, o corpo estremecer. Ela engole seco, segura a respiração e imagina o cenário deste teatro de horrores.

Seria uma fazenda? Uma fábrica instalada em obscuros guetos de uma metrópole qualquer? Haveria um capataz com botas longas e uma espingarda ameaçando criaturas cinzas de olhos vazios e manchados? E o mandante? Seria um homem de caminhar lento, olhar intimidante, ar presunçoso, que espalha sua gordura burguesa em uma rede ou mesa de escritório, enquanto decreta as sentenças de seus cativos?

E os escravos? (sim, é isso mesmo: ESCRAVOS). Como arrastam seus corpos nesta existência triste? Com convivem com suas almas mutiladas, dia após dia? Como suportam viver em meio às bestas? Que faz isso com eles, e assiste eles e escreve sobre eles? Esse nojo, essa náusea e cansaço da vida não os fazem vomitar até que não haja mais dor?

Ele tem pavor. Medo de que essa seja apenas mais uma notícia e esse mais um texto. E ele sabe que será. Medo de acordar no dia seguinte e seguir sua vida enquanto eles continuam lá. Como fazer as tarefas diárias, como acordar, trabalhar, ou simplesmente falar, sabendo que isso aconteceu, que está acontecendo?

Inevitavelmente, o dia seguinte virá. Ele sabe que estará vivo mais um dia para a náusea. E sabe, que as malditas tarefas diárias, o entorpecimento cotidiano, em especial um trabalho inútil, irão fazê-lo esquecer-se dos ESCRAVOS e ser engolido pela mesquinhez do cotidiano, pela apologia ao trivial. Tudo isso a mando dos senhores de engenho “civilizados”. Lembra-se do pensamento marxista. Sabe que “é da empresa privada sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário”.

Sabe também que é exatamente igual ao resto dos repugnantes porque ouviu sobre “o horror” e seguiu sua vida. E escreveu sobre isso.

Mas, por quê? Por que o Velho continua escrevendo? E vivendo...


07/07/2007

O tal blog me pergunta: “O que vc quer de mim? Me dá o nome de Editoria Social e de Social não escreve nada? Aliás, que diabos de nome é esse. O que quer dizer?Preciso de uma identidade”. Eu respondo:

Meu amigo, só posso dizer que está f.
Falta inspiração, falta otimismo. Otimismo é essencial porque ninguém quer ler um texto amargo. Escritores amargos sempre foram rejeitados pela maioria dos leitores, exceto por uma minoria amarga e antipática que debruça suas angústias sobre as linhas desses escritores “malditos”. Bukowski , o eterno marginal, era um chato de galocha: detestava todos os escritores, os leitores, enfim o mundo inteiro. Se fãs batiam à sua porta pedindo autógrafos eles os expulsava sobre uma enxurrada de palavrões. Chamava a todos “os felizes” de fudidos e a única coisa que era digna de seus elogios eram os cavalos e seu uísque.

Niestzshe era outro chato. Irritantemente provocativo. Uma honestidade intelectual que denuncia a mesquinhez e a trapaça ocultas em nossos valores mais elevados. Uma verdade incômoda sobre o ser humano. E para te colocar ainda mais pra baixo afirma que “Deus está morto” e que o socialismo é uma mentira maravilhosa.

Escritores complicados (ou que complicam a vida) também são chatos. Aqueles, sabe? Cheio de dramas e crises existenciais. O Sartre, por exemplo. Deveria estar escrito no prefácio dos livros dele o seguinte: “Ler Sartre pode causar danos colaterais. Além de fortes dores de cabeça e náuseas, a leitura em excesso pode te levar a um inferno psicológico irreversível”.

Textos pessimistas são chatos, querem te colocar pra baixo e a vida é tão bela. Não que eu esteja me comparando a esses escritores. Eles fazem arte, ciência. Eu faço isso aqui mesmo.

O que eu quero te dizer, amigo blog, é que esta “pena” só consegue expressar suas angústias neste momento. E aviso: elas são chatas. Eu estou chata. E antipática. E mau-humorada. Portanto, quando as paixões e os ideais retornarem a essas veias os textos irão vomitar linhas coerentes com o tal título. Até lá, sinto lhe informar que: não, você não tem identidade. Aliás, está muito longe disso. É um bastardo, um filho enjeitado, concebido por acaso, paridio à contragosto. Você é, como diria Raul Seixas, uma metamorfose ambulante, uma aberração virtual.


01/07/2007

Perfil
Dogival Vieira:
um grito em defesa da igualdade racial

Palestra sobre diversidade étnica. Auditório lotado. As pessoas conversam e aguardam o próximo palestrante, mas quando ele chega ao microfone e começa a falar o silêncio é absoluto, a atenção é focalizada nele e todos concentrados querem ouvir sua oratória. O personagem em questão é o jornalista, advogado, poeta e militante Dogival Vieira, membro da ONG ABC Sem Racismo e responsável pela Afropress – Agência Afroétnica de Notícias. Em entrevista, ele expõe detalhes da sua vida e trajetória até a militância.

Sergipano, da cidade de Salgado, Dogival é filho de um vaqueiro e repentista de cordel, e de uma dona de casa, trabalhadora da roça, ambos muito pobres e humildes, semi-analfabetos. Até os 12 anos, Dogival viveu em Salgado onde trabalhava na roça e também como oleiro. Quando tinha 12 anos, o pai resolveu tentar a sorte em São Paulo, enquanto isso, a família ficou em Salgado sobrevivendo de uma pequena agricultura nos fundos de casa. Um ano e meio depois, o pai conseguiu trabalho na Prefeitura de Cubatão, e foi buscar a família. Inicia-se uma outra etapa, agora em S. Paulo, na cidade de Cubatão, morando numa casinha muito pobre, no bairro do Jardim Casqueiro.

Leitura e jornalismo
Terminado o ensino médio, Dogival presta vestibular para a Faculdade de Comunicação de Santos, onde cursa jornalismo. A opção pela Faculdade de Comunicação vem, inicialmente do apreço pela leitura: “Comecei a trabalhar como guardinha mirim na Prefeitura de Cubatão, trabalhando na Biblioteca Municipal. Imagine, o que eu fazia, sempre que havia oportunidade, lia, lia muito. Li quase todos os livros da Biblioteca, de romance, especialmente. Da leitura ao gosto de escrever foi um passo, é um desdobramento natural” explica o jornalista. Além disso, a visão idealista do profissional de jornalismo contribuiu para a escolha: “quando a gente era jovem, no meu tempo, imaginava, o jornalista como uma espécie de herói de capa e espada, cobrindo guerras, escrevendo do front. Eu gostava dessa idéia”.

Militância
“A militância começou na Faculdade de Comunicação, onde fui líder estudantil. Foi lá que aprendi o significado da militância política, (...) foi o período que antecedeu a abertura democrática, os tempos da abertura, da anistia, da volta de grandes figuras como Brizola, Gabeira, o retorno dos cassados. Vivi esse tempo, já como repórter do jornal em que trabalhava, ainda cursando a faculdade”.
Depois disso, Dogival foi vereador de Cubatão, também assessor de comunicação do Ministério da Educação, além de secretário particular adjunto do ministro da Educação, depois consultor da Unesco, onde teve a oportunidade de participar da implementação do Programa Bolsa Escola, hoje Bolsa Família, e do Programa Diversidade na Universidade, do qual foi o primeiro coordenador responsável pela estruturação inclusive institucional do Programa.

Igualdade Racial
O engajamento na luta pela igualdade racial e contra o racismo aconteceu, no período pós 2002, quando Dogival passa a coordenar o Projeto Diversidade na Universidade do Ministério da Educação, na condição de consultor da UNESCO. “Tive a consciência de que a questão racial era elemento estruturante da desigualdade social no Brasil(...) entendi o processo de desconstrução da identidade negra que o racismo opera”, afirma o militante. É nesse contexto que surge a ONG ABC sem Racismo, que tem como objetivo sensibilizar e mobilizar a sociedade para a denúncia contra a discriminação racial. Mas também advoga uma atitude pró-ativa, com projetos nas áreas da Educação, do Trabalho, dos Direitos Humanos, da Mídia, onde criamos a Afropress – Agência Afroétnica de Notícias -, que é a primeira Agência de Notícias no Brasil, com foco na temática racial e étnica.

Perspectivas
Dogival é otimista quando se fala na luta pela igualdade racial: “O racismo causa um profundo prejuízo aos negros, a sociedade e ao Brasil, como um todo. Somos a metade do país, 49% da população brasileira e não podemos mais aceitar a condição da invisibilidade e ou da subalternidade que nos reservam. Temos direitos, e vamos continuar a luta pelos nossos direitos, por igualdade racial e cidadania. Não podemos aceitar a condição de cidadãos de segunda classe, de cidadãos pela metade, se somos metade do país”.

*Matéria produzida para a faculdade.