22/07/2007

Senhores de engenho, donos dos corpos, senhores das almas


“Quantas vezes tenho vontade de rasgar o peito e estourar o crânio vendo que somos tão pouca coisa uns para os outros”. (Goethe)


O Velho não costuma ouvir rádio no computador. Exceto quando se trata do bom e velho rock and roll. Uma notícia em um site conhecido chamou sua atenção. A matéria também estava escrita, mas por algum motivo ele preferiu ouvi-la. Falava sobre trabalho escravo. A voz fria do locutor denunciava calmamente os números de um relatório sobre “o horror”. À medida que as estatísticas eram calmamente relatadas, ele sentia que o quarto ficava pequeno e gelado. As paredes pareciam se comprimir a ponto de sufocá-lo. Sentia o peito apertado, o coração oprimido. Ele olha fixamente para o um ponto qualquer, sente as lágrimas queimarem o rosto, o corpo estremecer. Ela engole seco, segura a respiração e imagina o cenário deste teatro de horrores.

Seria uma fazenda? Uma fábrica instalada em obscuros guetos de uma metrópole qualquer? Haveria um capataz com botas longas e uma espingarda ameaçando criaturas cinzas de olhos vazios e manchados? E o mandante? Seria um homem de caminhar lento, olhar intimidante, ar presunçoso, que espalha sua gordura burguesa em uma rede ou mesa de escritório, enquanto decreta as sentenças de seus cativos?

E os escravos? (sim, é isso mesmo: ESCRAVOS). Como arrastam seus corpos nesta existência triste? Com convivem com suas almas mutiladas, dia após dia? Como suportam viver em meio às bestas? Que faz isso com eles, e assiste eles e escreve sobre eles? Esse nojo, essa náusea e cansaço da vida não os fazem vomitar até que não haja mais dor?

Ele tem pavor. Medo de que essa seja apenas mais uma notícia e esse mais um texto. E ele sabe que será. Medo de acordar no dia seguinte e seguir sua vida enquanto eles continuam lá. Como fazer as tarefas diárias, como acordar, trabalhar, ou simplesmente falar, sabendo que isso aconteceu, que está acontecendo?

Inevitavelmente, o dia seguinte virá. Ele sabe que estará vivo mais um dia para a náusea. E sabe, que as malditas tarefas diárias, o entorpecimento cotidiano, em especial um trabalho inútil, irão fazê-lo esquecer-se dos ESCRAVOS e ser engolido pela mesquinhez do cotidiano, pela apologia ao trivial. Tudo isso a mando dos senhores de engenho “civilizados”. Lembra-se do pensamento marxista. Sabe que “é da empresa privada sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário”.

Sabe também que é exatamente igual ao resto dos repugnantes porque ouviu sobre “o horror” e seguiu sua vida. E escreveu sobre isso.

Mas, por quê? Por que o Velho continua escrevendo? E vivendo...


7 comentários:

Anônimo disse...

Suelen, vc é a única pessoa que conheço que se apega de forma tão profunda à vida dos outros que sofrem. Desse modo vc faz despertar quem está por perto, e que quer ser acordado. Porém tem um problema na sua forma de pensar e sentir o mundo. Esse problema não é simples, mas devastador para vc. Não consegue seguir em frente com sua própria vida, resolvendo seus problemas pessoais, porque acredita que é responsável pela lógica do planeta, e que se essa lógica é má, é por culpa sua. E isso resulta na sua morte lenta. Eu percebo que essa angústia toda é um veneno que toma calmamente. E tudo isso só pode estar errado! Você está se anulando, por uma causa justa, mas da pior forma. A forma que não resolve nada. Porque isso te faz desistir de qualquer luta. Você tem que saber dividir as coisas! Posso parecer desumana falando dessa forma. Mas essa me parece a melhor saída para que viva bem e consiga trabalhar no que gosta, que é melhorar um pouco seu mundo. Tenta se lembrar de quantas coisas boas vc tem. É um começo para te ajudar...Eu sei que vc vai me criticar por tudo isso que estou escrevendo...mas procura entender um pouco onde quero chegar. O seu bem estar é primordial. Não se pode tirar forças para dar ao outro se não se tem isso. Se cuide primeiro. Bjs.

Anônimo disse...

Parabéns, vc conseguiu me angustiar..rsss (sempre consegue).

Não consigo ver de uma forma negativa essa angústia. É a prova viva de que vc não perdeu a sua "capacidade de se indignar", fator essencial de um verdadeiro revolucionário. Sua indignação, compaixão é o que te mata e salva. Prefiro isso à indiferença, prefiro isso ao vazio dos hipócritas.

Obrigada por sempre conseguir me angustiar (no "bom" sentido, é claro)

Bj na bocaaaaaaaaaaa

Anônimo disse...

Tenho apreciado bastante ler seus textos, Suelen!
Expressam sua reflexão e indignação diante das agruras e insanidades de nosso mundo e nosso tempo.
No posto de um leitor que desconhece os detalhes da personalidade e a história da vida
do autora, identifico no seu texto a expressão de uma angústia que suponho peculiar àqueles que por vezes se despertam para uma possível realidade.
Uma realidade onde se descobre um mundo construído por seres que já deveriam estar maduros o suficiente para conviverem de forma justa, igualitária e fraterna em comunidade, uma vez que somente em razão dessa comunidade é que foi e continua sendo possível a sustentação e sobrevivência de cada indivíduo.
A maioria desses indivíduos sofrem por sua alienação dentro desse convívio social e muitos até reconhecem a natureza de seu sofrimento. No entanto, todos permanecem estáticos na procura pela solução e se mostram apáticos diante do ruir de suas vidas.
São indivíduos que não conseguem se reconhecer diante de seus semelhantes e de si mesmos, quanto menos solucionar os impasses em sua vida comunitária alienada.
Essa angústia vem se propagando e creio que ela, mais cedo ou mais tarde, vai impelir a todos para um beco cuja única saída será enfrentar e dominar o que nos assola ou derrubar os limites do beco.
Fique conosco, Suelen!
Ainda teremos alternativas.
Compartilhemos nossas angústias e nos ajude a decidir o que fazer neste beco.
Rsrs...
Aguardo novos textos!
Beijos, Suelen!!

Anônimo disse...

Li esse texto há dois dias. Mas, não consegui escrever nada depois de ler. Não dava. E há dois dias penso nas suas palavras e sobre o "horror" que vc mencionou. Penso em determinadas passagens: "almas mutiladas", "entorpecimento cotidiano", "cansaço da vida", ...enfim penso, reflito. sinto.

É essa a resposta. É por isso que vc continua escrevendo.

Um beijo

Anônimo disse...

Putz, Su, meus olhos encheram d'água com seu texto.
Incrível sua capacidade de sentir a dor deles, de "viver" a realidade deles.
Você é tão humana, tão sensível. Tem tanto a nos ensinar...
Beijos, saudades!

Anônimo disse...

Nossa, essa doeu hein?
Colocou toda a alma e a dor nas linhas. Texto espontâneo, sincero, bem escrito. Não subestime isso. Continue escrevendo sim. Sempre.

Bjjj

Anônimo disse...

parabens este texto é completamente profundo e faz viajar nas linhas, parabens