11/08/2007

O Pai


Você sempre em agonia pelos males do mundo, sem perceber as cicatrizes da vida marcadas no corpo e na alma de alguém tão próximo de você. Sangue do seu sangue, mas cuja história você ignora. Resquício de uma rebeldia adolescente que se transformou em orgulho. Será? Sabe-se lá qual seria a análise freudiana pertinente ao caso. O fato é que você perdeu tanto que agora todos os motivos parecem estupidamente banais, claramente mesquinhos, definitivamente medíocres.

Em um momento inusitado, ele conta a sua história e você apenas ouve, enquanto sofre calada a dor de um arrependimento estéril. Relata fatos únicos de sua existência. Um filho da roça que andava descalço pelo sertão baiano enquanto seu pai, um rico fazendeiro, cobria de plantações e gado toda a região. “Sabe o que é andar descalço, aos farrapos, em uma terra cujo dono é seu pai?” A humilhação, a vergonha de ser rejeitado sem saber por quê.

A criança se transformou em um adulto que da vida só conhecia o cabo da enxada. Dos amigos, todos miseráveis também, lembra-se das cadeiras nas calçadas em frente aos botecos e das apostas para ver quem bebia mais. Treze anos e um rosto desbotado, olhar sem brilho, calos de um velho, a alma mutilada. A aposta era para ver quem se entorpeceria até esquecer do mundo, de si mesmo e de quem nunca poderia ser.

Quando a seca expulsou o pai das terras, ele veio para o asfalto derramar seu suor. Passou fome, sentiu-se órfão, aqui ele era apenas mais um filho da seca, sem cheiro e nem sabor. Aprendeu uma profissão e se juntou ao “exército industrial de reserva” do capitalismo selvagem, da humanidade fria e animalesca. Depois amou, construiu família e viu os filhos crescerem, se afastarem a ponto de o olharem como um estranho. Das frustrações, a maior delas, é não poder pagar a faculdade de jornalismo da filha rebelde. Ele sempre quis que ela “fosse alguém”. Que fosse o que quisesse ser.

Você se rasgando em angústias pelas dores do mundo sem perceber que tudo o que você ama, defende e protesta estava representado no pai. “O social” (bah!) que você tanto buscou está aí, esteve aí a sua vida toda e você ignorou. A história de vida do pai é parte do grande retrato da tragédia humana. Inicia-se quando é abandonado pelos seus e continua enquanto é abandonado pela pátria mãe gentil, pela humanidade triste e covarde.

Finalmente você entende o pai. E ele parece te entender. A semelhança entre os angustiados é nítida, mas até hoje nenhum dos dois se deu conta. A diferença é que enquanto você grita uma voz rouca, o pai chora calado e sozinho.


12 comentários:

Anônimo disse...

A história é linda. Suas palavras são fortes, bem colocadas. Bem sinceras. Deu nó na garganta e eu não sei o que dizer.
Beijo grande.

Anônimo disse...

Como vc pode escrever tão bem assim hein? E que história. Já pensou em escrever um livro? Não to brincando não. Não duvido que você seja futuramente mais uma escritora brasileira famosa!
Como a Tha disse, não sei o que falar nem comentar. Só sei que o seu texto ficará, pelo menos, o dia todo na minha cabeça.
QUero t ver menina!
Saudades.


Beijos

Anônimo disse...

Mais um belo texto, Suelen!
Linda homenagem! ...
Linda reflexão! ...
Você descreveu bem um reconhecimento de que as suas angústias, são semelhantes as
angústias de todos à sua volta, mesmo daqueles que as disfarçam ou daqueles as ignoram.
Todos temos perspectivas diferentes, diferentes subjetividades de uma mesma natureza humana, que por vezes não se entendem, não se conciliam, mas compartilham muitas coisas, um mesmo mundo, uma mesma busca.

Anônimo disse...

BRAVO, BRAVO! MUITO POÉTICO.
SEU PAI AINDA TERÁ (OU JÁ TEM) MUITO ORGULHO DA FILHA REBELDE.
ESTE É UM BELO CONTO Q CONTA A HISTÓRIA DE TANTOS FILHOS E PAIS Q Ñ SE CONHECEM...
ESTE VC PODERIA INCLUIR NO SEU FUTURO LIVRO.

Anônimo disse...

Oi bruxa...
Cada texto novo seu é um novo olhar sobre o mundo, mais maduro, porém sempre sensível, sempre intenso e apaixonado. Paixão pelas palavras, pelo ser humano (por mais que às vezes isso oscile entre ódio e paixão), enfim...espontâneo, sincero

Um abraço

Anônimo disse...

Hi, Suzie Q.
Me apropriando das suas palavras, que "pena" nervosa, hein?
Puts...sem palavras...não tenho seu talento...texto brilhante!!!!!

Bjs

Anônimo disse...

Incrível o que tu faz com as palavras, garota. Cada dia melhor, mais profunda, perceptiva e talentosa. Que texto!

Fica com Deus!!!

Anônimo disse...

Que linda a casa nova, Su!!
Adorei!
Tô com saudade, bruxinha!!!
Beijocas, inté...

Anônimo disse...

Chegando de viagem agora, procurando noticias da bruxa e dou de kara com um texto desses...nossa...tôsem palavras, só respirei fundo depois de ler!
Saudades!

Beijinho

Anônimo disse...

eai, otimo texto parabens seu pai é uma figura, tenho maior orgulho dele e do seu jeito diferente de ser

Unknown disse...

Que talento,heim mulher!?!?! Parabéns,você tem tudo pra ser uma competente jornalista,uma bela escritora ou algo do ramo.... Você cativa, prende a atenção, faz maravilhas com as palavras.... nunca desista de seus ideais, siga em frente, faça das dificuldades degraus,degraus firmes,pra você subir cada vez mais,aprender cada vez mais e por fim realizar sonhos,pois nossa vida não é nada se não tivermos metas, objetivos traçados e força de vontade para poder alcançá-los...Parabéns
De: Andreia e Henrique

Rok disse...

Já tinha passado aqui, mas ainda não tinha lido esse texto. Me feri nele.